UCCLA apresenta livro de Nely Nyaka sobre memória e história de Moçambique

A União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) acolheu, no dia 16 de Outubro, em Lisboa, o lançamento do livro «Mahanyela: A Vida na Periferia da Grande Cidade de Ka Mpfumo, Lourenço Marques, Maputo», da escritora moçambicana Nely Nyaka, uma obra que retrata memórias familiares, solidariedade comunitária e transformações históricas e sociais de Moçambique.

A publicação, narrada na primeira pessoa, apresenta experiências vividas pela autora ao longo de várias décadas, destacando os valores de respeito, entreajuda e apoio às populações mais vulneráveis, num percurso marcado pelas mudanças políticas, sociais e culturais do país.

O evento, realizado no auditório da UCCLA, foi moderado por Fernando Jorge Cardoso, especialista em assuntos africanos, e contou com intervenções de Gita Honwana Welch, filha da autora e coautora da publicação, e de José Manuel Lopes de Castro, editor da Blue Book.

Durante a apresentação, José Manuel Lopes de Castro destacou a importância da obra para a preservação da memória histórica de Moçambique, estabelecendo uma ligação com o livro «Memórias», de Raul Bernardo Honwana, marido de Nely Nyaka, publicado na década de 1980.

Segundo o editor, os dois testemunhos constituem contributos importantes para a compreensão das experiências familiares e das transformações vividas pela sociedade moçambicana ao longo do período colonial e após a independência.

O responsável explicou ainda que a concretização de «Mahanyela» resultou de um trabalho de recolha de memórias desenvolvido por Gita Honwana Welch, através de conversas com a mãe, permitindo transformar experiências pessoais num testemunho destinado às gerações futuras.

Obra valoriza memória familiar e identidade moçambicana

Na sua intervenção, Gita Honwana Welch destacou a complementaridade entre as duas publicações, considerando que apresentam perspectivas distintas sobre acontecimentos e experiências partilhadas pela mesma família.

Enquanto «Memórias» privilegia uma abordagem mais política, «Mahanyela» apresenta uma perspectiva centrada na vida doméstica, nas relações comunitárias e no papel das mulheres na preservação das tradições e dos valores sociais.

A coautora salientou que os acontecimentos narrados ultrapassam a história de uma família, reflectindo experiências de várias gerações de moçambicanos que testemunharam o colonialismo, a independência nacional e as posteriores transformações sociais.

A obra permite igualmente compreender aspectos da vida nos bairros periféricos de Maputo, anteriormente denominada Lourenço Marques, incluindo os costumes, as relações de vizinhança e os mecanismos de solidariedade utilizados pelas comunidades para enfrentar dificuldades económicas e sociais.

Nova edição conjunta prevista para 2027

Um dos principais anúncios da sessão foi a preparação de uma edição especial que reunirá «Mahanyela» e «Memórias», numa parceria editorial entre a Blue Book e a editora moçambicana Marimbique.

Segundo José Manuel Lopes de Castro, a publicação conjunta está prevista para 2027 e pretende valorizar o legado literário e histórico de Nely Nyaka e Raul Bernardo Honwana.

A iniciativa permitirá apresentar aos leitores dois testemunhos complementares sobre acontecimentos históricos e experiências familiares, contribuindo para a preservação da memória colectiva de Moçambique.

Nely Nyaka deixou legado de solidariedade

Nascida a 2 de Novembro de 1920, na Catembe, em Moçambique, Nely Nyaka destacou-se pelo seu envolvimento em iniciativas sociais e comunitárias, particularmente no apoio a crianças órfãs e famílias em situação de vulnerabilidade.

O seu activismo começou no seio da Igreja Metodista Wesleyana, tendo posteriormente participado em actividades do Instituto Negrófilo e da Associação Pfuna, organização dedicada ao combate à pobreza infantil.

Ao longo da vida, a autora acompanhou profundas transformações políticas e sociais em Moçambique, experiências que serviram de base à construção da sua narrativa autobiográfica.

Publicada inicialmente em 2018, a obra «Mahanyela» percorre aproximadamente um século de memórias e acontecimentos, apresentando uma perspectiva pessoal sobre a evolução de Maputo e das comunidades que habitavam a periferia da cidade.

A palavra «Mahanyela», proveniente da língua ronga, pode ser traduzida como «forma de viver», «forma de ser» ou «forma de estar», expressão que sintetiza a dimensão humana e cultural da publicação.

Nely Nyaka faleceu a 5 de Abril de 2024, aos 103 anos, deixando um testemunho sobre a história, a identidade e os valores da sociedade moçambicana.

A sessão de lançamento terminou com a participação do público, que partilhou recordações, experiências familiares e reflexões sobre a importância da preservação da memória histórica.

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