O Parlamento angolano debateu esta quarta-feira (13) os violentos tumultos de finais de julho, que deixaram um rastro de morte e destruição em várias províncias do país, com a oposição a apontar o dedo ao Presidente da República, João Lourenço, como principal responsável pela convulsão social.
Os incidentes, ocorridos entre 28 e 30 de julho, na sequência da greve dos taxistas, resultaram em pelo menos 30 mortos, mais de 200 feridos e 1.500 detenções, de acordo com dados oficiais.
Antes do início do debate, a presidente da Assembleia Nacional, Carolina Cerqueira, pediu um minuto de silêncio em homenagem às vítimas.
No plenário, o MPLA, partido no poder desde 1975, tentou capitalizar politicamente a narrativa, apresentando-se como defensor da ordem e do diálogo. Virgílio Tyova, primeiro vice-presidente do grupo parlamentar, lamentou as mortes e sublinhou que Angola “não aceitará a violência e a desordem como instrumentos de mudança”, elogiando ainda a atuação das forças de defesa e segurança.
Tyova acusou implicitamente os organizadores da greve de “rasgar o tecido da convivência nacional” e afirmou que quem protesta deve fazê-lo “pelos canais apropriados”.
A UNITA, principal partido da oposição, desmontou esta tese, atribuindo as causas da crise a “fatores críticos”, como a violação sistemática da Constituição, falhas na segurança do Estado, fome, pobreza e ausência de políticas públicas eficazes.
Para o deputado Álvaro Chikwamanga, a postura do Presidente João Lourenço agravou o cenário: “A reação tardia do Presidente da República, que não se pronunciou tempestivamente ante a gravidade daquela sublevação, pareceu indiferença e encorajou a polícia a atirar à queima-roupa contra civis indefesos”, denunciou.
O deputado Abel Sapinãla foi ainda mais incisivo: “Se existe um culpado da situação, é o Presidente João Lourenço. Não vale a pena mentir”, disparou.
Outros partidos da oposição, como PRS e PHA, também criticaram a falta de diálogo entre o Governo e as associações de taxistas. Benedito Daniel (PRS) defendeu que “o direito à greve deve ser respeitado”, mas lamentou a escalada para a violência. Florbela Malaquias (PHA), por sua vez, condenou a manipulação política do descontentamento popular e apelou às forças policiais para atuarem com proporcionalidade e humanidade.
Já a deputada Elizandra Gourgel (MPLA) procurou amenizar as críticas, alegando que os jovens “não querem violência”, mas sim uma Angola pacífica e economicamente estável.
O debate termina sem consenso, mas evidencia a profunda fratura entre governantes e governados, numa altura em que a pressão social contra o regime ganha força e expõe a incapacidade do Executivo para gerir crises de forma preventiva e dialogante.
