Caros compatriotas,
Senhoras e senhores,
Hoje trago-vos uma reflexão necessária e urgente sobre três pilares fundamentais do nosso desenvolvimento nacional: a imigração, o emprego e as condições de trabalho em Angola. Estes temas estão profundamente interligados e revelam muito sobre quem somos e para onde caminhamos como Nação.
De acordo com dados do site CountryEconomy, Angola contava em 2020 com cerca de 656 mil imigrantes residentes, representando 1,96% da população nacional.
Grande parte destes estrangeiros trabalha nos sectores petrolífero, mineiro, de construção civil e comércio, contribuindo significativamente para a economia nacional.
Contudo, há também uma realidade paralela — a dos imigrantes descontrolados, pessoas que entram ou permanecem no país sem documentação. Infelizmente, não existem estatísticas oficiais que indiquem o número exato, o que revela uma fragilidade na política migratória e fronteiriça.
Esta situação gera desafios sérios: desde a concorrência desleal no mercado de trabalho até à dificuldade de garantir direitos laborais e fiscais para todos.
Estrangeiros no sector petrolífero e mineiro
Angola é um país rico em recursos naturais, e o sector petrolífero é o seu motor económico.
Segundo dados da Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANPG), mais de 80% dos trabalhadores da indústria petrolífera são angolanos.
Ainda assim, em áreas altamente técnicas e de gestão, os estrangeiros continuam a ocupar uma fatia importante.
Num estudo recente, no segmento de serviços petrolíferos, havia cerca de 21 mil trabalhadores, dos quais 16 mil eram angolanos e 5 mil estrangeiros — isto significa que aproximadamente 24% desses postos eram ocupados por estrangeiros qualificados.
Esta dependência de mão-de-obra estrangeira em funções especializadas mostra que o país ainda carece de quadros técnicos nacionais suficientemente formados.
Por outro lado, a presença desses profissionais estrangeiros tem vantagens:
a) transfere conhecimento e tecnologia;
b) garante padrões técnicos internacionais;
c) Impulsiona o crescimento de setores estratégicos.
Mas também há desvantagens:
a) reduz oportunidades para profissionais nacionais;
b) provoca desigualdade salarial;
c) Alimenta a perceção de que os cargos de prestígio continuam reservados a estrangeiros.
Trabalhadores nacionais e o sector não qualificado
Enquanto isso, a maioria dos angolanos está inserida em sectores não qualificados ou informais.
Os números são claros: 80% da força de trabalho nacional está no sector informal, sem contrato, sem segurança social e sem proteção trabalhista. Apenas 14 em cada 100 angolanos em idade ativa têm um emprego formal.
Esses empregos informais concentram-se sobretudo em:
1) agricultura de subsistência,
2) comércio de rua,
3) transporte informal,
e pequenos serviços urbanos.
Este cenário evidencia uma economia dual:
de um lado, um sector moderno e formal, dominado por empresas estrangeiras e técnicos qualificados;
do outro, um sector nacional amplo, precário e de baixa produtividade.
Salário mínimo e qualidade de vida
Atualmente, o salário mínimo em Angola situa-se em 70.000 kwanzas mensais, com promessa governamental de aumentar para 100.000 kwanzas.
Contudo, o custo de vida nas principais cidades — Luanda, Benguela, Lubango — ultrapassa largamente esse valor.
Com a inflação a afetar o preço dos alimentos, da energia e do transporte, um salário mínimo já não garante uma vida digna.
As consequências dessa realidade são duras:
o aumento da pobreza laboral — pessoas que têm emprego, mas continuam pobres;
o crescimento da informalidade, pois muitos procuram formas alternativas de rendimento;
e a fuga de cérebros, uma vez que jovens qualificados procuram oportunidades noutros países.
Emprego e desemprego
No primeiro trimestre de 2025, Angola registou uma taxa de desemprego de 29,4%, o que representa cerca de 5,3 milhões de cidadãos sem trabalho.
Ao mesmo tempo, 12,8 milhões de pessoas estão empregadas, mas a maioria sem contrato.
Este quadro revela que ter trabalho não significa ter estabilidade.
A informalidade enfraquece a arrecadação fiscal, limita o investimento público e agrava as desigualdades sociais.
O desafio do Estado não é apenas criar empregos, mas criar empregos de qualidade com salário justo, segurança e oportunidades de crescimento.
Vantagens:
1) A presença estrangeira qualificada acelera a transferência de tecnologia e know-how.
2) O investimento internacional mantém o país economicamente ativo e garante receitas fiscais.
3) A população jovem e numerosa representa um potencial humano gigantesco, se bem formado.
Desvantagens:
1) Persistência da desigualdade entre trabalhadores nacionais e estrangeiros.
2) Dependência de capital e mão de obra externa para sectores estratégicos.
3) Desvalorização do trabalhador angolano, que enfrenta baixos salários e condições precárias.
4) Crescimento económico sem desenvolvimento social efectivo.
Caros compatriotas,
Os dados falam por si, mas é a consciência colectiva que precisa agir. Angola só poderá alcançar um desenvolvimento verdadeiro quando valorizar o seu capital humano, quando formar, empregar e remunerar com dignidade os seus próprios cidadãos.
Devemos, sim, continuar a acolher trabalhadores estrangeiros qualificados, mas de forma equilibrada, garantindo que cada oportunidade de emprego sirva também para capacitar um angolano.
Precisamos de políticas públicas que combatam a informalidade, aumentem o salário real e investam fortemente na educação técnica e profissional.
Porque não há riqueza nacional sem justiça social. E não há progresso sustentável enquanto a maioria trabalhar muito e ganhar pouco.
Angola tem potencial para ser não apenas um país rico em recursos, mas também um país rico em oportunidades e em dignidade.
Muito obrigado.
Por José Juliano
