Subiu o táxi – Heldário Mandela

Mas um degrau, subiu o táxi…

Mas não foi só o preço.

Subiu também a distância entre o pobre e o pão.

Subiu a tristeza nos olhos de quem já não tem forças nem pra reclamar.

Subiu a humilhação de quem caminha horas pra chegar a um destino, porque a moeda no bolso não chega.

Essa não é a Angola que prometeram.

Não é a Angola dos nossos sonhos,

É a Angola do silêncio forçado, da fome disfarçada, da dor escondida por trás de sorrisos fortes.

Tem crianças a comer do lixo,

Mães a jejuar não por fé, mas por falta de opção.

Tem velhos a catar o que o sistema despreza,

Tem jovens a desistir antes mesmo de tentar.

E quem governa, vê?

Quem dirige, sente?

Quem tem o poder, se importa?

Porque o povo não aguenta mais carregar o peso da subida:

O pão subiu.

O táxi subiu.

A vida subiu.

Mas o salário… continua enterrado.

Tem casas onde o arroz virou memória,

E o pão, se aparece, é dividido com lágrimas.

Tem famílias que só conhecem o jantar – porque o pequeno almoço e o almoço foram eliminados da rotina.

Essa não é a Angola que eu reconheço.

A Angola que conheço tem dignidade.

Tem gente de ouro com mãos calejadas.

Tem esperança a gritar por justiça.

Tem fé a clamar por mudança.

E essa fé ninguém nos tira.

Hoje escrevo com o coração rasgado,

Mas com a convicção de que o mundo precisa acordar.

Porque enquanto eles sobem nos seus carros blindados,

Nós estamos a ser esmagados nas estradas da indiferença.

Se um povo inteiro tem fome, o problema não é falta de comida.

É falta de vergonha!

É excesso de egoísmo!

É ausência de humanismo!

Por Heldário Mandela

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