“Quem não joga, não merece” – Ana Jenário

Com o poder único de unir pessoas, transcender barreiras sociais e culturais e criar um sentimento de comunidade, os eventos desportivos locais funcionam como antídoto e catalisadores de interação, e trazem à tona valores de cooperação e solidariedade.

O recente triunfo no Afrobasket é prova disso. Ao erguer mais um título, Angola mostrou não apenas a sua supremacia no desporto continental, mas também a sabedoria popular de que “pequeno não é metade”. Com o “cinco nacional”, revivemos alegrias há muito arrancadas do rosto dos adeptos, diante de um governo que, como diria Tiago Costa – T.C, “não serve, não nos serve e já não se serve”.

A festa foi de regozijo pela coragem, foco e determinação dos bravos rapazes de Pep Claros, que nos tornaram “dodecacampeões” africanos. Porém, como diz o ditado, “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”. Ao entrar no recinto para entregar o troféu, o Presidente da República foi recebido com vaias ensurdecedoras. O gesto da claque lembrou que o basquetebol não imuniza os cidadãos contra as malambas do quotidiano.

Desta vez, não foram vídeos ou textos nas redes sociais, nem acusações de terrorismo, pilhagem, arruaça ou vandalização de bens públicos. Foi o povo, com a arma simples das “vaias”, que responsabilizou João Lourenço pelas desgraças de uma nação cansada. O incômodo foi tamanho que os serviços auxiliares e a própria organização do evento tiveram de aumentar o volume do som ambiente do pavilhão para abafar o coro popular.

Enquanto no Kilamba milhares de apoiantes, não apenas da Caop B, manifestavam a sua insatisfação, a TPA preferia transmitir apenas kuduro. Nada de novo. Também não é novidade o discurso de um governo que jura de pés juntos não ter dinheiro para educação, saúde ou transporte, condenando a juventude ao desemprego, à falta de moradia e à mendicidade.

Curiosamente, foi preciso vencer o Afrobasket para se descobrir que “há valores no cafocolo”.

De repente, choveram milhões: casas avaliadas em 80 milhões de kwanzas, diamantes, prados, 5 mil dólares, 25 milhões de kwanzas e mais 10 milhões de kwanzas. Tudo isso em menos de cinco dias, num país onde o povo há anos sobrevive do lixo.

São mimos sem fim, distribuídos aos heróis da quadra, enquanto os paupérrimos olham de camarote, certos de que tais recursos também resolveriam parte das suas aflições. E assim fica a pergunta: será mesmo, como querem nos fazer crer, que a solução para os nossos anseios passa por sermos todos jogadores de basquetebol?

Por Ana Jenário

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