Angola chega a 2026 num equilíbrio sensível. O Orçamento Geral do Estado (OGE), fixado em 33,2 biliões de Kwanzas, não é apenas um documento de números; é o termómetro da nossa resiliência. Como cidadãos e analistas, cabe-nos o dever da lucidez: o país vive uma crise que exige mais do que “boa vontade” — exige uma gestão de excelência e uma vigilância implacável sobre cada Kwanza gasto.
A Agricultura como Soberania
Não haverá estabilidade social enquanto a nossa mesa depender de divisas que não controlamos. A recomendação ao Executivo é clara: o apoio ao setor agrícola não pode ser apenas retórica de campanha. Precisamos que as verbas destinadas à agricultura cheguem efetivamente ao camponês e ao agro-negócio, garantindo infraestruturas de escoamento e logística. Sem uma agricultura forte, o OGE será sempre um saco roto, drenado pela importação de bens que temos terra e braços para produzir aqui.
Juventude: O Potencial que não pode esperar
O empreendedorismo jovem é a nossa maior janela de oportunidade, mas também o nosso maior risco se for negligenciado. Um jovem empreendedor sem acesso a crédito real, asfixiado por impostos prematuros e burocracia, é um talento perdido para a informalidade ou para a emigração. O Estado deve atuar como facilitador, não como obstáculo. O orçamento deve refletir uma aposta séria na formação técnica e em fundos de garantia que permitam que as ideias da juventude se transformem em empresas que geram empregos.
O Peso da Realidade e a Missão dos Deputados
Com quase metade da nossa despesa (46,6%) hipotecada ao serviço da dívida, a margem de erro é nula. Aos nossos Deputados, deixo o apelo: a vossa missão não termina na aprovação do documento. O Parlamento deve ser o “cão de guarda” do interesse público. É imperativo fiscalizar se o dinheiro do PIIM e outros projetos está a criar valor nas províncias ou se está a ser consumido pela ineficiência administrativa.
O Interesse Nacional Acima de Tudo. Salvaguardar o interesse nacional significa proteger o capital humano e manter a paz social através da justiça económica. O OGE 2026 tem de ser o orçamento da viragem. Que a história não nos recorde como a geração que geriu números, mas como aquela que, com patriotismo, soube transformar a crise numa reforma estrutural profunda.
A hora é de vigilância e visão e, é também de pensar Angola.
Por: Jorge Baptista
