O Sahel como epicentro da nova guerra fria – Hitler Samussuku

Desde o fim da pandemia da COVID-19, a região do Sahel consolidou-se como uma das arenas mais críticas da geopolítica contemporânea, onde a crise local se funde com a disputa global entre potências. O fenômeno das populações queimando bandeiras francesas e erguendo bandeiras russas não pode ser lido apenas como uma reacção emotiva, mas como uma manifestação simbólica da transição de hegemonias. A França, através do sistema do Franco CFA e da rede conhecida como Françafrique, preservou durante mais de seis décadas uma posição de core power sobre os seus ex-territórios coloniais, funcionando como centro de decisão e de apropriação de recursos. O urânio do Níger, vital para a matriz energética francesa, o ouro de Burkina Faso, o petróleo do Chade e o gás da Mauritânia foram absorvidos dentro de um padrão clássico de resource curse, no qual a abundância de recursos naturais não se traduziu em desenvolvimento local, mas em dependência externa e fragilidade política. Nesse contexto, a retirada gradual da presença ocidental abriu espaço para o preenchimento desse vazio estratégico por actores revisionistas, sobretudo a Rússia e a China.

A Rússia reactualiza no Sahel um movimento histórico que remete à Guerra Fria, quando a União Soviética se projectou como defensora dos povos colonizados. O Grupo Wagner, instrumento militar-privado que desempenhou funções de proxy force, representou a operacionalização da teoria do heartland de Halford Mackinder em versão adaptada ao século XXI: controlar os corredores energéticos e as zonas pivotais do continente africano equivale a reposicionar-se no tabuleiro global. Moscou oferece três elementos que o Ocidente hesita em conceder — armas, protecção e propaganda —, exactamente o tripé de que regimes militares necessitam para consolidar sua legitimidade. A propaganda russa, por meio de manipulações digitais e conteúdos gerados por inteligência artificial, constrói narrativas de resistência anticolonial, associando líderes como o coronel Assimi Goïta (Mali), o capitão Ibrahim Traoré (Burkina Faso) e o general Abdourahamane Tchiani (Níger) à continuidade da luta histórica por soberania. O discurso de “verdadeira independência após 60 anos” é amplificado como contra-narrativa ao discurso ocidental de “fracasso democrático”, transformando-se em arma ideológica no espaço informacional global.

A Aliança dos Estados do Sahel (AES), formada por Mali, Burkina Faso e Níger em oposição à CEDEAO, constitui não apenas uma coalizão de conveniência, mas também um marco na reorganização regional em torno de um projecto de sovereignty first, no qual a rejeição ao Ocidente se associa a medidas de redistribuição interna, como a imposição de quotas sobre lucros das multinacionais em Burkina Faso. Trata-se de um exemplo prático da tentativa de romper com a lógica de dependência estrutural e reinserir o Estado africano como ator ativo no sistema-mundo. Ainda que com limitações, esse movimento se conecta à ascensão dos BRICS como plataforma alternativa, oferecendo acesso a financiamento fora das condicionalidades do FMI e do Banco Mundial e fortalecendo a percepção de uma ordem multipolar em construção. A China, por meio do Fundo Internacional Chinês e de megaprojectos de infraestrutura, consolida-se como polo de periferia centralizada, ampliando sua influência ao mesmo tempo em que os Estados Unidos reposicionam a sua presença através do Corredor do Lobito, eixo logístico essencial para assegurar minerais críticos como o cobalto e o cobre indispensáveis à transição energética.

O Sahel, marcado por desertos áridos e savanas secas, é hoje uma periferia estratégica, um espaço aparentemente marginal, mas essencial para a redistribuição do poder global. É simultaneamente a região mais jovem do planeta, com mais de 60% da população abaixo dos 18 anos, e o epicentro do terrorismo mundial, concentrando mais da metade das vítimas globais, um paradoxo que reflete tanto as pressões do crescimento demográfico quanto as consequências das mudanças climáticas. A combinação de vulnerabilidade social, riqueza mineral e instabilidade política torna o Sahel o laboratório perfeito da nova Guerra Fria, onde narrativas, mercenários e corredores logísticos substituem batalhas convencionais. Ao erguem-se bandeiras russas nas praças de Ouagadougou ou Niamey, não se trata apenas de propaganda orquestrada, mas da expressão de um continente que busca romper com a condição de periferia passiva e reivindicar um papel activo no jogo das grandes potências. O Sahel é, portanto, um tabuleiro onde se cruzam as dinâmicas da teoria do heartland, a maldição dos recursos e a emergência de um sistema internacional multipolar que redefine os limites da hegemonia ocidental.

NB: Este conteúdo foi produzido para debate no Grupo Marxista de Pesquisa em Política Social da Universidade de Brasília

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