O perdão como espetáculo e a memória como resistência – Kamalata Numa

Lágrimas cinematográficas ou não, porque condecorar no perdão emociona; mas o 27 de Maio, a sexta-feira sangrenta, o monte Sumy, Kanfunfu, a morte traiçoeira de Sílvia Mubiala, lançar angolanos para se alimentar a partir de contentores e tantas outras tragédias não comovem, nem merecem referências de condenação.

Esta selectividade emocional revela a hierarquia moral que o regime construiu: há vítimas que servem à narrativa oficial e há vítimas que devem ser esquecidas para proteger a legitimidade do poder. O perdão do MPLA que deve ser ignorado por não ter luz nem aura, quando convertido em espetáculo de quem não tem legitimidade de o fazer, deixa de ser gesto ético e torna-se instrumento de controle simbólico — uma forma de domesticar a dor, manipular a história e fabricar uma reconciliação artificial.

A verdadeira reconciliação não se faz com espetáculos ensaiados, mas com memória, justiça e verdade. Enquanto as lágrimas forem encenadas e a dor for censurada, Angola continuará refém da mentira histórica. O país precisa curar-se não por decreto, mas por reconhecimento — e esse reconhecimento começa quando o Estado admite que o sangue derramado não tem cor partidária.

Só o povo angolano pode julgar e condenar os actores políticos que, em nome da libertação, roubaram até a independência, desviaram o erário e empobreceram a Nação. A história não absolve a corrupção nem a arrogância de quem fez da pátria um instrumento de dominação.

Onde estava João Manuel Gonçalves Lourenço quando Holden Roberto e Jonas Malheiro Savimbi, ilustres filhos de Angola, se ergueram com coragem contra o colonialismo português? Onde estava a sua voz quando o sonho da liberdade era pago com sangue, exílio e silêncio?

Foi a pressão do povo angolano, da UNITA e de ACJ — e não a benevolência do regime — que obrigou ao reconhecimento histórico de Holden Roberto e Jonas Malheiro Savimbi como Pais da Nação e da Independência de Angola. A memória desses homens não pertence ao MPLA, pertence ao povo que acreditou que Angola podia ser livre.

Hoje, a UNITA deve sentir-se realizada por ver o nome do seu Líder Fundador finalmente a deitar abaixo a intransigência do MPLA de ser o único e legítimo representante do povo angolano, finalmente caiu junto do órgão simbólico da democracia, a AssembleiaNacional: apesar da justiça histórica ainda não ter sido feita Angola e ao povo angolano. Porque a ferida da reconciliação não se fecha com gestos políticos superficiais, mas com um processo ético e espiritual de verdade.

É tempo de abraçar a verdadeira iniciativa de reconciliação que nasce da fé, da consciência e do perdão autêntico — aquela que a Igreja Católica e as forças morais da Nação têm defendido: uma reconciliação sem propaganda, sem cálculo e sem medo da verdade.

Porque o perdão não se decreta. Conquista-se — na verdade, na justiça e na memória.

OBRIGADO!

Por Kamalata Numa

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