O músico e activista cívico Luaty Beirão, conhecido artisticamente como Ikonoklasta, e o professor, artista e activista cultural Cheik Hammed Hata foram homenageados no âmbito do Mural da Cidadania, inaugurado na província do Bengo no quadro do microprojecto “Hip Hop e Cidadania”.
A iniciativa é promovida pela Associação Cívica Mizangala Tu Yenu Kupolo, em parceria com o Movimento Cívico MUDEI, com financiamento do National Endowment for Democracy (NED). Segundo os promotores, o mural pretende preservar memórias e utilizar a arte urbana como instrumento de reflexão, formação e participação cidadã.
A homenagem junta duas figuras associadas, em diferentes momentos e contextos, à cultura urbana e à intervenção cívica em Angola. Para a organização, os percursos de Luaty Beirão e Cheik Hammed Hata representam experiências de uma geração que encontrou no Hip Hop, na música e noutras expressões culturais espaços de afirmação, aprendizagem, consciência social e participação.
Os promotores enquadram a iniciativa no que denominam “terceira revolução angolana”, conceito que, no contexto da homenagem, está relacionado com a transformação da consciência, das ideias, da participação cívica e da defesa das liberdades.
A trajectória dos dois homenageados está ligada à utilização da cultura urbana como forma de expressão. Luaty Beirão é destacado pelo seu percurso musical e pela intervenção cívica, enquanto Cheik Hammed Hata é recordado pela influência exercida entre jovens de Cacuaco através do Rap, Break Dance e Capoeira.
Segundo o testemunho que acompanha a homenagem, Hata já era uma referência entre os jovens ligados à cultura urbana quando o autor o conheceu, em 2008, durante um espectáculo de Rap realizado na Vidrul, em Cacuaco, por intermédio de Oliveira MC.
Naquele período, Hata desenvolvia actividades ligadas à Capoeira, ao Break Dance e ao Rap, tendo, segundo o mesmo testemunho, construído uma influência que ultrapassava a dimensão artística e alcançava questões relacionadas com formação, identidade cultural, convivência e consciência social. A história da cultura alternativa de Cacuaco é também associada, no relato, a espaços e grupos como a Terceira Divisão e o Monangambe.
Entre as memórias evocadas na homenagem está um episódio ocorrido a 20 de Agosto de 2020, durante uma manifestação no Bengo. Segundo o relato do autor, este foi atingido por uma viatura policial e sofreu fracturas no braço direito, na perna direita e na mandíbula.
De acordo com o mesmo testemunho, Hata terá intercedido junto do comandante da Polícia, afirmando: “Este é meu puto, não pode morrer aqui. Levem-no para o hospital”. O autor considera a intervenção uma das memórias mais marcantes da relação entre os dois.
O relato refere ainda que Hata, Piriquito e Mbonzo Lima se deslocaram posteriormente a uma esquadra para formalizar uma queixa e acabaram detidos, segundo o autor. Este afirma também que foi levado para as celas apesar das lesões e que não recebeu a assistência médica e medicamentosa que considerava necessária.
As circunstâncias descritas integram o testemunho apresentado no âmbito da homenagem e não são apresentadas como factos independentemente verificados.
Perante a situação relatada, os detidos decidiram iniciar uma greve de fome. O autor conta que Hata tinha terminado pouco antes um período de jejum de 30 dias relacionado com o Ramadão, mas decidiu permanecer ao lado dos demais e participou nos três dias seguintes.
Para o autor, esse episódio traduz valores de fé, resistência e solidariedade, elementos que ajudam a explicar a dimensão pessoal da homenagem e a importância atribuída à figura de Hata.
A organização considera que a memória dos dois homenageados deve ultrapassar as suas histórias individuais e servir de referência para novas gerações. Nesse sentido, o Mural da Cidadania é apresentado como um espaço destinado a recordar experiências e a estimular os jovens do Bengo a questionar, reflectir e participar na vida pública.
Ao fazer o balanço da iniciativa, o Coordenador-Geral da Associação Cívica Mizangala Tu Yenu Kupolo afirmou: “Conseguimos transformar uma ideia em realidade; transformar uma parede em mensagem; transformar arte em cidadania; e transformar um momento em memória colectiva”.
A organização entregou simbolicamente o mural ao Bengo, aos jovens, artistas, cidadãos e futuras gerações, apelando à sua preservação e continuidade.
Para os promotores, a homenagem a Luaty Beirão e Cheik Hammed Hata representa, assim, o reconhecimento de percursos ligados à cultura urbana e à participação cívica, transformando a arte numa ferramenta de memória e reflexão colectiva.
No Bengo, o mural fica como um espaço de expressão artística e memória, onde a cultura urbana é apresentada como uma das formas de promover consciência, diálogo e participação cidadã.
