Jornalistas da RNA, TPA e ANGOP ameaçam paralisação por salários baixos

Angola poderá registar, pela primeira vez em 50 anos, uma greve na imprensa pública caso os órgãos estatais não atendam às reivindicações salariais dos profissionais. Jornalistas da Rádio Nacional de Angola (RNA), Televisão Pública de Angola (TPA), Agência de Notícias de Angola (ANGOP) e Jornal de Angola exigem um aumento de 58% nos salários e ameaçam uma paralisação já no final deste mês, caso a medida não seja aplicada ao vencimento de agosto.De acordo com à DW, muitos profissionais têm medo de represálias e recusam-se a falar abertamente sobre as condições de trabalho. Mesmo dentro dos órgãos públicos, existem divisões: nem todos apoiam a greve, apesar das reclamações nos bastidores.Em entrevista à Rádio Essencial, o secretário-geral do Sindicato dos Jornalistas, Pedro Miguel, considerou prematuro avançar com a greve e apelou ao bom senso do Governo, sublinhando a importância de confiar na reciprocidade desta postura.

O sindicalista alertou ainda para os riscos psicológicos da ansiedade, referindo que a mesma pode tornar-se patológica, provocar frustrações e problemas de saúde mental, aconselhando os trabalhadores a viverem um dia de cada vez.

O Presidente da República, João Lourenço, já remeteu a questão ao ministro das Telecomunicações e Comunicação Social, Mário Oliveira, mas este ainda não se pronunciou.

O jornalista e analista político José Gama afirma que os órgãos estatais funcionam mais como instrumentos de propaganda do Executivo e do MPLA do que como veículos de informação. “Uma greve na TPA e na RNA podia deixar o país em silêncio, mas o Governo tentaria impedir isso”, perspetiva. “Os jornalistas dependem destes órgãos para receber salários e o Governo poderia ameaçá-los com sanções após a greve”, alerta.

Para Ilídio Manuel, também jornalista e analista político, os profissionais estão divididos. Muitos temem represálias, enquanto o Executivo tenta evitar que a exigência de aumento salarial revele fragilidades do regime. Segundo ele, os salários baixos funcionam como mecanismo de alinhamento ideológico dos jornalistas com o poder. “Na verdade, não fazem informação, mas propaganda. Estão de mão estendida à caridade do poder político”, refere. “Esta postura não é inocente. Os jornalistas estão divididos: uns querem greve, outros não”, conclui.

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