Numa Angola onde o povo mede o tempo em refeições que faltam e promessas que nunca chegam, João Lourenço decidiu brindar os angolanos com um espetáculo televisivo digno de um palácio cercado por paredes douradas e verdades plásticas. Numa entrevista transmitida pela TPA, o Presidente não falou ao povo — falou do povo, e o tom foi de quem já não sente o cheiro da rua nem o gosto amargo da fome que assola milhões.
Enquanto os angolanos contam kwanzas para comprar pão, o Presidente contabiliza dólares em bilhetes de primeira classe. Quase um bilhão de dólares em viagens, segundo estimativas não desmentidas — e não, não é um erro de digitação. Um bilhão. Um número que, em qualquer país normal, causaria revolta parlamentar, protestos massivos e investigações sérias. Em Angola, gerou uma entrevista. Daquelas que parecem escritas por assessores, revisadas por bajuladores e ensaiadas por um actor já cansado do próprio papel.
João Lourenço, que já se apresenta como uma caricatura do reformador que prometeu ser, dedicou boa parte da conversa televisiva a atacar o seu velho adversário, Adalberto Costa Júnior, presidente da UNITA. Adalberto — que recentemente pediu uma audiência para aliviar a tensão política crescente — recebeu como resposta pública uma frase carregada de desprezo:
“A UNITA não pode criar tensão política e pensar que resolve com audiências no palácio.”
Frase que, para qualquer ouvido atento, soa como um eco distante dos tempos em que o poder não dialogava — apenas mandava. João Lourenço não quer diálogo, quer obediência. E isso, num país que já sangrou demais pela arrogância dos seus líderes, é perigoso.
O mais irônico? Dentro do próprio MPLA, as vozes discordantes se multiplicam. O Presidente, com o seu ar de segurança forçada, avisou que ninguém recebeu luz verde para candidatar-se à sua sucessão. E num tom que mistura ameaça velada e deboche, disparou contra os “supermilitantes e supergenerais” — alfinetada directa a figuras como Higino Carneiro, que parecem querer refundar o partido das cinzas de um poder que já não convence ninguém.
A entrevista, que deveria acalmar os ânimos, atiçou ainda mais o fogo. Porque João Lourenço não entende que a política não se faz com monólogos nem com truques de televisão pública. O país vive momentos que lembram os conflitos internos do MPLA nos anos 60 e 70, e a cada dia que passa, a máquina do Partido-Estado range como um velho camião sem travões, numa ladeira íngreme.
O Presidente agora enfrenta três frentes: a oposição liderada pela UNITA, a sociedade civil que perdeu o medo e os seus próprios camaradas, como Higino, que já não sussurram nas sombras — gritam nas bases. E todos sabem: não se faz guerra em duas frentes. Muito menos em três.
Quando o príncipe já não é amado e também já não é temido, aproxima-se o fim do principado. João Lourenço perdeu o amor do povo. E perdeu o medo que inspirava. Resta-lhe o quê? A soberba?
O próximo congresso do MPLA será menos sobre o futuro do partido e mais sobre o futuro do país. Porque, sejamos claros: o MPLA já não tem nada para dar. E a pergunta que paira no ar é cruel, mas inevitável:
Angola cederá à mudança liderada pela UNITA ou mergulhará no caos de um poder que se recusa a largar o osso?
A história está a escrever-se. E se João Lourenço tivesse um pingo de vergonha, não a mancharia tanto com vaidade, vingança e viagens de luxo.
Por Hitler Samussuku
