Há uma velha máxima romana que atravessou séculos como um aviso aos poderosos: a mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta.
Curiosamente, essa lição parece não ter chegado a certos corredores da política moderna. Ou, se chegou, foi arquivada na mesma gaveta onde se guardam promessas eleitorais depois da contagem dos votos.
Em Angola, a discussão volta sempre ao mesmo ponto, como uma roda de carroça presa no mesmo buraco da estrada. A empresa espanhola Indra volta a surgir como protagonista do processo tecnológico das eleições, tal como já aconteceu em vários pleitos anteriores no país. A empresa tem participado na logística e nas soluções tecnológicas de eleições angolanas desde 2008, incluindo a contagem e transmissão de resultados eleitorais. 
Nada de ilegal nisso, dirão alguns. Afinal, a empresa afirma que atua apenas no plano técnico e tecnológico e que os seus sistemas são desenhados para garantir transparência e segurança. 
Mas a política raramente vive apenas daquilo que é legal. Vive sobretudo daquilo que parece justo.
E é aqui que começa a história que lembra as velhas parábolas sobre reinos antigos.
Conta-se que num reino distante havia um guardião das chaves do tesouro. Ele guardava tão bem o cofre que, com o tempo, ninguém mais sabia exatamente quanto ouro havia lá dentro. Quando perguntavam, respondia sempre com serenidade: “Confiem em mim, eu tenho experiência”.
Os anos passaram. O guardião continuava no cargo. E o tesouro continuava invisível.
Um dia alguém perguntou ao rei:
“Majestade, não seria prudente trocar o guardião, apenas para dissipar dúvidas?”
O rei respondeu:
“Justamente por haver dúvidas é que ele deve permanecer. Só ele conhece as fechaduras.”
A história, claro, não fala de Angola. Fala apenas da natureza humana.
Os grandes autores da história política já advertiam sobre isso. Quando um sistema começa a depender excessivamente de uma única engrenagem, deixa de ser apenas um mecanismo institucional. Passa a ser uma relação de dependência.
E dependência, na política, costuma ser um terreno fértil para suspeitas.
Há outro ensinamento antigo, vindo da sabedoria oriental:
Um imperador pediu a dois artesãos que construíssem um espelho perfeito para o palácio. Um deles poliu o metal durante meses. O outro apenas limpou cuidadosamente a parede até que ela refletisse tudo como um espelho.
Quando o imperador perguntou qual dos dois era o verdadeiro artista, o sábio respondeu:
“O melhor espelho é aquele que não precisa convencer ninguém.”
A confiança pública funciona da mesma forma.
Quando um processo eleitoral precisa ser constantemente defendido, explicado, justificado e blindado, algo fundamental já se perdeu: a aparência de neutralidade.
Porque eleições não são apenas contagem de votos. São, antes de tudo, um pacto psicológico entre o povo e o poder.
Quando esse pacto se fragiliza, o sistema começa a ranger.
E a história é implacável com reinos que ignoram esse tipo de sinal. Dos impérios romanos às monarquias europeias, muitos governantes acreditaram que controlar o mecanismo das eleições, dos censos ou das assembleias garantiria estabilidade eterna.
Garantiu apenas uma coisa: desconfiança acumulada.
E a desconfiança, como a pólvora, tem uma característica curiosa.
Pode ficar anos espalhada pelo chão sem causar nada.
Até aparecer a faísca.
CRÔNICA | HORÁCIO DOS REIS – JORNALISTA
