Greve dos jornalistas sem foco: o som do silêncio dos inúteis? – Horácio dos Reis

Quando a greve não incomoda ninguém, quando não levanta poeira no mercado, nem provoca discussão nos candongueiros, quando não vira sequer tema de conversa no musseque ou nas salas climatizadas da elite, então não é greve, é apenas um recado perdido no vento. E talvez esta seja a mais cruel ironia da profissão jornalística no nosso país: aquela que já foi chamada de “quarto poder” tornou-se, na prática, o “quarto do poder político”, com a porta entreaberta para que os governantes entrem, descansem e saiam sem pagar a conta.

No antigo Egito, os escribas tinham prestígio porque detinham o monopólio da escrita. Eram conselheiros dos faraós, os guardiões da memória do império. O que diriam esses escribas se vissem hoje jornalistas reduzidos a meros cronistas do palácio, anotadores fiéis dos discursos oficiais, prontos a aplaudir e nunca a questionar? Talvez recordassem a máxima inscrita nos templos: “Aquele que cala diante da injustiça já se tornou cúmplice.” E, no entanto, os nossos profissionais foram sendo domesticados, de chicote simbólico na mão do poder, até transformarem a pena em megafone de propaganda.

A sabedoria asiática, sobretudo a dos mestres chineses, lembra-nos que “quem se curva demais deixa de ver o horizonte”. A classe jornalística curvou-se tanto, por tanto tempo, que já não vê adiante, apenas enxerga o chão onde pisa, esperando uma esmola salarial que nunca chega. Greve? Sim, mas uma greve de efeito nulo, porque a população já não sente falta daquilo que não reconhece como essencial. Quando o povo acredita mais nas redes sociais, nos boatos de esquina e nos vídeos amadores do que no noticiário oficial, é sinal de que a profissão perdeu o seu norte.

Eis a tragédia: jornalistas que não incomodam, não investigam, não provocam debates, tornam-se invisíveis. E invisibilidade, em qualquer luta, é sentença de derrota. Jean-Paul Sartre dizia que “somos condenados à liberdade”. Já os jornalistas, na nossa realidade, parecem condenados à servidão voluntária, aplaudindo o chicote que os açoita. Rousseau lembrava que “o homem nasce livre, mas por toda parte encontra-se acorrentado”. Que corrente mais cruel do que a da autocensura, da obediência cega, da falsa neutralidade que apenas legitima o opressor?

Enquanto isso, os salários míseros são tratados pelo Estado como esmolas caritativas. A leviandade com que o governo gere esta greve é um insulto, mas também um reflexo do desprezo público. Porque, convenhamos: se o povo já não vê o jornalismo como força transformadora, por que se mobilizaria para defender-lhe o valor? Os governantes sabem disso. Sabem que a categoria está fragilizada, desunida, desacreditada. E por isso ignoram, como se dissessem: “Gritem, façam barulho, parem de trabalhar… ninguém vai sentir a vossa falta.”
E talvez tenham razão. Porque, no fim, não é apenas o Estado que desrespeita os jornalistas, são os próprios jornalistas que, ao abdicarem do seu papel crítico, abriram mão da dignidade. De que vale reivindicar um salário justo se não se reivindica, em primeiro lugar, a independência editorial? A luta que deveria estar na mesa não é apenas pelo aumento percentual, mas pela devolução da credibilidade, pela reconquista da confiança pública, pela afirmação da profissão como ferramenta da democracia.
O grande Voltaire, mestre da ironia francesa, diria sem pestanejar: “Não basta exigir pão; é preciso também exigir a liberdade de falar sobre a fome.” Mas no nosso caso, parece que se pede apenas o pão, com a boca calada e os olhos desviados.

Talvez um dia a categoria desperte. Talvez volte a assumir o seu lugar como escriba do povo, e não do palácio. Mas até lá, continuaremos com greves silenciosas, invisíveis, irrelevantes; greves que confirmam o óbito de um poder que já não é quarto, nem quinto, mas apenas sombra.

Porque, no fundo, como diria Confúcio, “um homem que perdeu a confiança do povo já não pode erguer-se em pé”. E hoje, quem olha para o jornalismo oficial, vê apenas uma classe ajoelhada, esperando que o poder lhe jogue algumas migalhas.

Uma greve, assim, não é luta. É epitáfio.

Por Horácio dos Reis | Jornalista

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