Frei Hangalo alerta para delírios sobre inteligência artificial em Angola

O analista e comunicador Joaquim José Hangalo, frei angolano da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, residente em Roma (Itália), apaixonado por Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) e formado em Engenharia, alertou, esta semana, para o que classificou como “delírios nacionais” em torno da utilização da inteligência artificial (IA) em sectores estruturantes do país, como o ensino primário e o sistema judicial.

Segundo o especialista, Angola ainda não dispõe das bases técnicas, humanas e digitais necessárias para uma adopção séria, sustentável e eficaz dessas tecnologias.

A posição foi apresentada durante uma intervenção no programa Momento de Partilha, da Rádio Despertar, onde criticou o entusiasmo acrítico em torno da IA, sublinhando que “a inteligência artificial não é verdadeiramente inteligência”, mas sim sistemas treinados com dados produzidos por pessoas e dependentes da qualidade da informação disponível.

De acordo com Frei Hangalo, os chamados modelos inteligentes “só sabem aquilo que já se sabe” e funcionam por combinação de dados existentes, não sendo criativos no sentido humano nem capazes de produzir conhecimento original. Acrescentou que a chamada IA generativa pode produzir respostas erradas ou incoerentes, fenómeno conhecido como “delírios da inteligência artificial”, quando os sistemas são mal treinados ou alimentados com dados fracos.

No contexto angolano, considerou que o problema central não é tecnológico, mas estrutural e humano, apontando a fraca produção de conteúdos de qualidade, a baixa literacia digital e a fragilidade das bases educativas como entraves reais à aplicação da IA, sobretudo no ensino primário. “Não se pode falar de inteligência artificial para crianças quando o país ainda tem dificuldades básicas na produção de materiais educativos”, afirmou.

Relativamente ao sistema judicial, o analista foi igualmente crítico, defendendo que a simples introdução de tecnologia não resolve problemas estruturais, sobretudo num contexto em que os processos continuam assentes em métodos tradicionais e num uso reduzido de sistemas digitais avançados.

Para Frei Hangalo, a transformação digital em Angola deve começar pela formação de pessoas, literacia digital, produção de conhecimento local e capacitação institucional, antes da adopção massiva de tecnologias avançadas como a inteligência artificial. “Sem conteúdo, sem formação e sem cultura digital, a IA vira apenas discurso bonito, mas vazio”, concluiu.

Fonte: Primeiro IT

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