A estiagem em Angola constitui um dos principais desafios socioambientais do país, devido aos seus efeitos sobre a segurança alimentar, o acesso à água potável, a biodiversidade e as condições de vida das populações, considera o ambientalista Rafael Lucas, presidente da organização não-governamental Minuto Verde.
Numa análise sobre as implicações socioambientais da estiagem, o responsável defende a adopção de medidas preventivas e sustentáveis para reduzir os efeitos da escassez prolongada de chuvas, sobretudo nas regiões sul, centro-sul e sudeste do país.
Segundo Rafael Lucas, a redução das precipitações, associada às temperaturas elevadas e à evaporação intensa, contribui para a diminuição das reservas de água superficial e subterrânea, afectando as actividades agrícolas, a pecuária e o abastecimento das comunidades.
Entre os factores que agravam o fenómeno, o ambientalista aponta as alterações climáticas, o desmatamento, as queimadas descontroladas, o uso inadequado dos solos e as dificuldades na gestão e conservação dos recursos hídricos.
A estiagem afecta particularmente a agricultura familiar, da qual dependem muitas famílias angolanas para a sua subsistência. A redução das chuvas compromete os ciclos agrícolas, diminui as colheitas e provoca perdas económicas para os camponeses.
De acordo com a análise da Minuto Verde, a quebra da produção pode contribuir para o aumento dos preços dos alimentos e dificultar o acesso das famílias mais vulneráveis a uma alimentação adequada.
A escassez de água constitui outra consequência preocupante, uma vez que a redução dos caudais dos rios e a secagem de nascentes obrigam algumas comunidades a procurar fontes alternativas, nem sempre seguras para o consumo humano.
Esta situação pode agravar os problemas de saúde pública, sobretudo quando não existem condições adequadas de abastecimento de água e saneamento.
O fenómeno também pode contribuir para a deslocação de famílias em busca de água, pasto e meios de subsistência, aumentando a pressão sobre os centros urbanos.
As mulheres, as crianças e os idosos estão entre os grupos mais vulneráveis, devido às dificuldades acrescidas no acesso à água, à alimentação, à educação e aos serviços básicos.
No domínio ambiental, Rafael Lucas alerta que a falta prolongada de chuva reduz a humidade e a fertilidade dos solos, favorecendo a erosão e agravando o risco de desertificação.
A escassez de água e alimentos afecta igualmente a fauna e a flora, podendo provocar a morte de espécies vegetais e animais e alterar o equilíbrio dos ecossistemas.
Outro risco apontado é o aumento dos incêndios florestais, associado à secura da vegetação, às temperaturas elevadas e às queimadas descontroladas.
Para o responsável da Minuto Verde, a estiagem deve ser analisada no contexto das alterações climáticas, tendo em conta a irregularidade das chuvas, o aumento das temperaturas e a ocorrência de fenómenos climáticos extremos.
Apesar das acções de assistência desenvolvidas pelo Executivo e por parceiros nacionais e internacionais, Rafael Lucas considera necessário reforçar as medidas estruturais de prevenção e adaptação, para além das respostas de emergência.
Entre as recomendações apresentadas pela Minuto Verde constam o reforço da gestão sustentável dos recursos hídricos, a construção e manutenção de infra-estruturas de retenção de água, a instalação de sistemas de captação da chuva e a promoção de práticas agrícolas adaptadas às condições climáticas.
O ambientalista defende igualmente o combate ao desmatamento e às queimadas descontroladas, através da fiscalização, da educação ambiental e da responsabilização dos infractores.
A organização recomenda ainda o envolvimento das comunidades, escolas, igrejas, autoridades tradicionais, associações juvenis, organizações não-governamentais e sector privado na definição e implementação de soluções sustentáveis.
Na sua análise, Rafael Lucas considera que o combate à estiagem exige uma política integrada que articule os sectores do ambiente, agricultura, recursos hídricos e protecção social, assegurando também assistência contínua às populações afectadas.
O presidente da Minuto Verde conclui que a protecção da água, dos solos e da biodiversidade deve constituir uma prioridade permanente, por ser fundamental para o desenvolvimento sustentável de Angola e para a segurança das gerações futuras.
