O défice na recolha de resíduos sólidos urbanos em Angola representa um risco grave para o ambiente e para a saúde pública, alertou o presidente da Organização Não Governamental “Minuto Verde”, Rafael Lucas.
Angola produz anualmente cerca de 8,3 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos, mas apenas 24 por cento são recolhidos, deixando um défice de aproximadamente 6,2 milhões de toneladas, segundo o Relatório Anual de Resíduos Sólidos Urbanos 2025, apresentado terça-feira, 6 de Outubro, pela Agência Nacional de Resíduos (ANR), em Luanda.
O documento, apresentado no Instituto Nacional da Biodiversidade e Áreas de Conservação (INBAC), indica que Luanda é a província com maior produção de resíduos sólidos urbanos, devido à elevada densidade populacional e ao crescimento acelerado da capital.
Depois de Luanda, seguem-se as províncias da Huíla, Huambo, Benguela, Bié, Uíge, Cuanza Sul, Cunene, Lunda Norte e Icolo e Bengo, segundo os dados apresentados pela ANR.
Apesar de liderar a produção nacional de resíduos, Luanda apresenta igualmente a maior taxa de recolha do país, estimada em 80 por cento. Ainda assim, persistem focos de deposição inadequada de lixo ao ar livre.
A nível nacional, a taxa média de recolha permanece em 24 por cento, cenário que evidencia os desafios existentes na recolha, tratamento e valorização dos resíduos sólidos urbanos.
Para o ambientalista Rafael Lucas, os números apresentados representam um grande desafio ambiental que exige uma resposta urgente, estruturada e colectiva.
Segundo o responsável, a diferença entre a quantidade de resíduos produzidos e os efectivamente recolhidos poderá estar relacionada com a insuficiência de meios de recolha e transporte, falta de infra-estruturas adequadas, cobertura limitada dos serviços em determinadas comunidades e o crescimento acelerado das zonas urbanas.
Rafael Lucas considera que os cerca de 76 por cento de resíduos fora dos sistemas de recolha correspondem a cerca de 6,3 milhões de toneladas por ano, representando uma pressão significativa sobre o ambiente.
O ambientalista alertou que a deposição inadequada pode provocar a contaminação dos solos e da água, poluição do ar, obstrução das valas de drenagem e o agravamento das inundações durante a época chuvosa.
Acrescentou que o lixo acumulado em locais impróprios favorece a proliferação de mosquitos, moscas e roedores, criando condições para o surgimento de doenças e transformando o problema numa questão ambiental, sanitária, social e económica.
Para o presidente da Minuto Verde, o aumento da capacidade de recolha e o encaminhamento adequado dos resíduos poderá contribuir para a construção de cidades mais limpas, comunidades mais saudáveis e redução dos impactos sobre os ecossistemas.
O ambientalista defendeu também o aproveitamento económico dos resíduos através da reciclagem de materiais como plástico, papel, cartão, vidro e metais, apontando a economia circular como uma oportunidade para estimular o empreendedorismo e criar “empregos verdes”, sobretudo para os jovens.
“Não basta recolher o lixo”, afirmou, defendendo a necessidade de garantir a separação, tratamento, reciclagem e encaminhamento dos resíduos para destinos finais ambientalmente seguros.
O responsável da Minuto Verde apelou a uma abordagem integrada entre o Executivo, administrações locais, empresas, organizações da sociedade civil, escolas e cidadãos, com investimentos em infra-estruturas, melhoria dos serviços de recolha, reforço da fiscalização e promoção de campanhas permanentes de educação ambiental.
Rafael Lucas sublinhou igualmente a importância da participação dos cidadãos na protecção ambiental, através de práticas como evitar a deposição de lixo na via pública, separar resíduos e participar em iniciativas de sensibilização e limpeza comunitária.
Na sua perspectiva, os dados apresentados pela ANR devem servir não apenas como um alerta, mas também como uma oportunidade para Angola transformar o desafio dos resíduos sólidos numa agenda de desenvolvimento sustentável, protecção da saúde pública e criação de valor económico.
A gestão dos resíduos, concluiu, deve ser encarada como uma responsabilidade partilhada entre o Estado, sector privado, organizações ambientais e cidadãos, com vista à construção de comunidades mais limpas, saudáveis e resilientes.
