A ameaça de um conflito armado entre a República Democrática do Congo (RDC) e Ruanda tornou-se cada vez mais iminente, com os rebeldes do M23, que, segundo a ONU e várias organizações internacionais, contam com o apoio de Kigali, a avançar em direção a Goma, a capital do Kivu Norte, no leste da RDC. A situação agravou-se após a tomada de Masisi e Minova, duas localidades estratégicas que abrem caminho para a cidade de Goma, com mais de 2 milhões de habitantes.
O Presidente congolês, Félix Tshisekedi, tem alertado reiteradamente sobre a possibilidade de uma guerra com o Ruanda, acusando o governo de Paul Kagame de apoiar os rebeldes do M23, que controlam áreas ricas em minerais preciosos no leste do Congo, como o coltão e o cobalto. Em resposta a esta crescente ameaça, o governo de Kinshasa decidiu, no passado domingo (26), cortar relações diplomáticas com Kigali, chamando todos os seus diplomatas de volta e pedindo que o Ruanda fizesse o mesmo.
O Presidente angolano, João Lourenço, tem desempenhado um papel central na mediação do conflito, liderando esforços diplomáticos em nome da União Africana para desescalar as tensões entre os dois países. Várias cimeiras foram realizadas em Luanda, mas até agora não houve sucesso em impedir o avanço dos rebeldes. A situação na região dos Grandes Lagos é crítica, não só devido aos interesses económicos e minerais, mas também por causa das implicações que um conflito entre a RDC e Ruanda poderia ter para toda a África e até para a economia global.
O M23, que havia estado inactivo durante quase uma década, regressou à actividade em 2021 com uma capacidade militar renovada e fortemente apoiada por Ruanda, de acordo com as autoridades congolesas e a ONU. Apesar de vários acordos de cessar-fogo, o grupo tem violado repetidamente os compromissos, aumentando a tensão na região. A ONU, através do Alto Comissariado para os Direitos Humanos, já emitiu um alerta sobre a catástrofe humanitária iminente caso Goma caia nas mãos do M23. A região já enfrenta uma crise de deslocados internos, com mais de 6 milhões de pessoas fugindo da violência dos rebeldes e das milícias étnicas.
O controle das áreas mineiras estratégicas do leste da RDC, agora sob domínio do M23, significa uma perda significativa para o governo de Kinshasa, que vê seus recursos minerais sendo desviados para mercados internacionais através do Ruanda e outras rotas. Esta exploração ilegal de minerais preciosos, como o coltão e o cobalto, tem gerado enormes lucros para os rebeldes, mas prejudica gravemente a economia congolesa.
A escalada do conflito tem também gerado uma grave crise humanitária, com milhões de pessoas em campos de refugiados e um número crescente de vítimas civis. Relatos de combates intensos e o aumento do número de mortos confirmam a gravidade da situação. A RDC já enfrenta uma crise permanente de violência, com mais de 100 grupos armados a operar na região, e a situação não mostra sinais de melhoria.
Diante deste cenário alarmante, a comunidade internacional continua a acompanhar de perto a crise. Embora os esforços diplomáticos de João Lourenço, com o apoio do Quénia e outros países da região, tenham gerado algumas promessas de paz, a realidade no terreno é cada vez mais difícil de controlar. A ameaça de uma guerra entre a RDC e o Ruanda é agora uma possibilidade real, e as consequências de um conflito em grande escala podem ter um impacto devastador para toda a região dos Grandes Lagos e para a África como um todo.
