As ilusões do governo e a esperança de 2027 – Germano Candimba

Entre promessas adiadas e prioridades invertidas, o país parece viver uma longa travessia entre o sonho e a desilusão. Mais uma vez, as manchetes denunciam a lógica invertida de um governo que prefere investir no cimento das aparências do que no pão da sobrevivência.

“Sem verbas, Governo adia início do Programa de Alimentação Escolar” — é o título que corta o apetite da nação. Milhares de crianças, sobretudo nas zonas rurais, continuarão a ir à escola com o estômago vazio e o caderno cheio de esperanças que já perderam validade. A fome, essa professora silenciosa, continua a reprovar gerações inteiras.

Mas, num país onde a prioridade se mede pela aparência, não tardou a outra manchete: “Presidente da República aprova nova fase de obras no Estádio 11 de Novembro com fundos de 13,6 milhões USD.” O mesmo governo que não tem dinheiro para alimentar crianças, tem milhões para pintar as arquibancadas do orgulho nacional. O estádio, esse símbolo do espetáculo, torna-se a metáfora perfeita de uma governação que se preocupa mais com a plateia do que com os bastidores.

E enquanto o pão se torna luxo e o emprego miragem, surge a promessa distante: “Subsídio de desemprego em Angola começa a ser implementado em 2027.” É a esperança com data marcada — e como todas as promessas adiadas, carrega o perfume da ilusão. 2027 surge como um farol longínquo, mas, para quem tem fome hoje, é apenas um ponto invisível no horizonte.

O governo, entre discursos e inaugurações, parece acreditar que o povo vive de paciência e aplausos. Contudo, o tempo das ilusões tem prazo de validade. As ruas sabem, as escolas sabem, e o povo começa a entender que não se come com promessas, nem se sonha com estádios.

2027 pode ser o ano da esperança, sim — mas só se o povo decidir transformar a esperança em exigência, e o silêncio em voz. Porque enquanto as prioridades forem invertidas, o futuro continuará adiado.

Por Germano Candimba

Licença: Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)
Os conteúdos editoriais abrangidos por esta política podem ser republicados gratuitamente, desde que sejam respeitadas as condições de atribuição.

Artigos Relacionados

A carregar artigos relacionados...