Angola continua sem rádios comunitárias 50 anos após a independência, alerta relatório da Uyele

Um relatório recente da Uyele – Associação Cívica denuncia a inexistência de órgãos de comunicação comunitários em Angola, meio século depois da independência. O documento é resultado de um projecto de formação de jornalistas comunitários implementado entre 2024 e 2025, com o apoio financeiro do National Endowment for Democracy (NED).

O relatório, intitulado “Projecto de Formação de Jornalistas Comunitários – Estado da Liberdade de Expressão e de Imprensa nos Municípios de Icolo e Bengo, Luanda e Bengo”, mostra que a ausência de rádios e jornais locais tem limitado o exercício da liberdade de expressão e o acesso à informação em comunidades periféricas e rurais.

Segundo a organização, 288 jovens — entre eles 122 mulheres e 166 homens — foram capacitados em jornalismo comunitário e segurança digital nos municípios de Viana, Dande, Muxaluando, Catete, Ambriz, Dembos, Quiçama e Cacuaco.

“O exercício da liberdade de expressão está gravemente limitado por inexistência de órgãos de comunicação social comunitários”, lê-se no documento, que também aponta os “elevados custos financeiros e burocráticos” como principais entraves à criação de rádios locais — estimados em cerca de 150 mil dólares.

IMG 20241214 162521 0O projecto contou com formações em oito municípios das províncias de Luanda, Bengo e Icolo e Bengo, entre outubro de 2024 e setembro de 2025.

Comunidades sem voz nem visibilidade

A investigação da Uyele revela que a falta de meios de comunicação comunitários impede milhares de cidadãos de se expressarem sobre os problemas das suas localidades, dificultando a denúncia de violações de direitos humanos e de casos de má governação.

“Passados 50 anos desde a independência, Angola não tem sequer uma rádio comunitária”, sublinha o relatório, alertando que a ausência de visibilidade mediática fomenta “a repressão às acções de protesto, às greves e ao associativismo cívico e político”.

Nos municípios abrangidos, a formação resultou na criação de duas plataformas online – TV Dembos e TV Quiçama – administradas pelos jovens formados. Estes projectos funcionam como alternativas digitais para a partilha de informação local, embora com alcance limitado devido às restrições de conectividade e energia eléctrica.

Angola continua sem radios comunitarias 50 anos apos a independencia alerta relatorio da Uyele
Jovens formados pela Uyele criam plataformas digitais para dar voz às comunidades locais.
Desigualdade de género e desafios culturais

O relatório destaca também as dificuldades na mobilização de mulheres para as formações, atribuindo-as a “condicionamentos sociais e culturais” ainda enraizados. Apesar disso, em municípios como o Ambriz e a Quiçama, as mulheres representaram mais de 40% dos participantes.

“O acesso à informação sem censura é um direito humano, civil e político”, recorda a Uyele, citando a Declaração Universal dos Direitos Humanos. “Com este projecto visamos contribuir para o fomento deste direito, corolário da liberdade de expressão e de imprensa em Angola.”

Chamada à acção

A associação defende a criação de novos projectos comunitários de comunicação e o reforço da literacia mediática nas zonas rurais e periurbanas. Para a Uyele, só a autonomia informativa das comunidades poderá garantir uma verdadeira democratização do espaço público e o fortalecimento da cidadania.

“A sociedade civil nestes municípios tem estado a desenvolver acções relevantes, mas a ausência de cobertura mediática inviabiliza todo o trabalho realizado”, conclui o relatório.

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