Por estes dias, o céu de Taguatinga parece guardar mais do que nuvens carregadas e o sol teimoso do cerrado. Há algo mais leve, mais denso, mais pulsante: é a estreia da peça Taguá, um mosaico de vivências que corta a carne com poesia, hip hop e memória. E entre os corpos em cena, um nome ressoa com força peculiar: Hitler Samussuku, o activista angolano que, depois de ser preso, sequestrado e perseguido, agora reaparece… como ator.
Sim, ele voltou. E não é para discursar numa manifestação ou desafiar tiranias com um microfone em punho. Voltou com uma outra voz – a da arte, que sussurra onde o grito já cansou, que escancara onde a política censura. Samussuku está em cena, no Brasil, com a peça Taguá, uma criação coletiva que faz do palco um terreiro de histórias reais – muitas dolorosas, outras hilárias, todas arrebatadoras.
Com direção de André Araújo, que também assina dramaturgia, cenário e figurino, Taguá é um espetáculo com cheiro de terra, suor e esperança. As narrativas costuram adolescências turbulentas, prisões solitárias, suicídios interrompidos, sexualidades descobertas, amores silenciados, e tudo aquilo que pulsa nas margens. O espetáculo é um sopro poético vindo de lugares que o Brasil oficial ainda finge não ver: Bahia, Amazônia, as ruas do DF. E sim, de Angola também.
Ali, no meio do elenco formado por talentos do Distrito Federal, surge Samussuku – único estrangeiro da trupe, mas plenamente integrado pela linguagem comum da dor e da resistência. Ele não está apenas a interpretar: está a reviver. Em uma das passagens mais tocantes da peça, compartilha com o público o episódio do sequestro que sofreu em 2019, quando foi levado à força diante dos olhos da própria mãe, num gesto de barbárie que o regime angolano tentou esconder, mas que agora, teatralizado, ganha o palco com dignidade e força emocional. A prisão em Angola virou cena. A tortura virou poesia. A opressão virou arte.
Mas não se engane o espectador desavisado que espera ver apenas um monólogo militante. Samussuku também diverte. Interpreta papéis cômicos, solta risadas do público e brinca com os estereótipos do próprio ativismo. Há nele uma leveza surpreendente, uma ironia afiada que corta o medo com humor. É como se dissesse: “tentaram me silenciar, mas agora faço vocês rirem”. E consegue.
A peça, que se ancora nas linguagens do slam, do rap e do teatro-documento, é também uma resposta ao desamparo. “Usamos a arte como ferramenta de sobrevivência”, diz o diretor Araújo. E é isso que se vê: sobreviventes em cena, contando suas histórias não como vítimas, mas como protagonistas de uma travessia feroz e bela.
Samussuku não é mais apenas um nome associado à resistência angolana. É agora parte do imaginário artístico do Brasil profundo, de Taguatinga, de uma Brasília que pulsa nos subterrâneos da cultura popular. Um activista que virou ator sem deixar de ser activista – apenas mudou a tática, ajustou o palco, reinventou o grito.
Taguá não é só uma peça. É um manifesto – e Samussuku, agora, também é um personagem dele mesmo. E talvez essa seja sua vingança mais poética contra os algozes: transformou as grades em metáforas, a cela em enredo, e o medo em cena aplaudida de pé.
Fim.
Por Helvécio Lima
