Diz a sabedoria africana que “quem nunca guardou a panela, não pode reclamar do rato que nela dorme”. Pois bem, em Angola, o rato está gordo e confortável, e a panela é servida por quem deveria dar o exemplo: o próprio partido no poder.
Quando a OMA, organização feminina do MPLA, decide aparecer em cena como se fosse tribunal, promotoria e polícia ao mesmo tempo, ficamos a saber que neste país ainda existem entidades acima do Estado. Não é novidade. A OMA sempre foi temida em muitos bairros: resolveu, à sua maneira, brigas de casal, questões de violência doméstica, e muitas vezes impôs a sua “lei da cintura para baixo”. Justiça popular, dir-se-ia.
Mas eis que, depois de longo silêncio, a OMA resolveu ressuscitar. E com quem? Primeiro com a senhora Florinda Miranda, que ousou pôr no mesmo prato da balança prazer sexual e dinheiro. Depois com o cantor Tsunami, coroado “rei da promiscuidade” pela própria fama e pelos refrões indecentes que pululam no país há anos. Curioso: Tsunami canta há muito tempo, arrasta multidões, e até já serviu de banda sonora a festas onde as próprias militantes da OMA dançaram de borla. A música só se tornou “imoral” quando o suspiro político exigiu um gesto moralizador.
Aqui entra a ironia: Joana Tomás, a antiga jornalista de fibra que agora veste a pele de secretária-geral da OMA, prometeu vitalidade e coragem, mas o que oferece é uma política sem sal, que mais parece eco vazio. Diz a sabedoria: “O tambor pode ser grande, mas se estiver furado, não faz barulho.”
A moralidade em Angola é uma moeda que o poder troca conforme a conveniência. O MPLA deixou que a degradação dos costumes fosse normalizada, talvez porque a distração popular com Tsunamis, kuduro e fofocas sexuais seja útil para que ninguém olhe para o preço do pão, da energia, da incompetência governativa ou para os buracos nas estradas. É a velha estratégia: quando não se consegue governar a barriga, governa-se a cintura.
O pior, porém, é o precedente perigoso: a OMA não tem competência legal para suspender concertos, muito menos para decretar quem pode ou não cantar em Angola. Isso cabe às autoridades competentes: a polícia, o Ministério Público, os tribunais. Mas todos assistem em silêncio cúmplice. E, mais uma vez, confirma-se a velha sentença africana: “No país onde o partido é mais forte que a lei, a justiça torna-se um tambor sem pele: só faz barulho, mas não toca música.”
O episódio da OMA, Florinda e Tsunami é mais do que uma querela sobre moralidade. É a prova de que, em Angola, as instituições são substituídas por organizações partidárias, que entram em cena quando convém e desaparecem quando o povo mais precisa delas. É um teatro de sombras, onde cada ator finge o papel de guardião da moral, mas, no fundo, dança ao ritmo da mesma música que condena.
No fundo, a OMA bate palmas com uma mão e tapa os olhos com a outra. Hoje condena a imoralidade, amanhã dança ao som da mesma música. Assim, ver a OMA indignada contra um músico ou uma cidadã é como ver um guarda que só apita para a bicicleta e fecha os olhos ao camião que atropela a estrada inteira. É o que em África se chamaria de “matar mosca com catana e poupar o leão que devora a aldeia”.
Não há moral que sobreviva quando quem deveria dar o exemplo prefere apontar o dedo ao povo, em vez de olhar-se ao espelho.
Por Horácio dos Reis | Jornalista
