Mais de 200 jovens participaram, quinta-feira, 5 de Novembro, na Biblioteca Provincial do Huambo, numa mesa-redonda sobre as ideologias políticas e o seu contributo para o desenvolvimento económico, a justiça social e a consolidação da democracia em Angola.
O encontro, promovido no âmbito do JANGO CULTURAL, reuniu representantes da JMPLA, do Partido Liberal e da JURA, além do especialista em Ciência Política Daniel Mayfuila, sob moderação de Osvaldo Temo.
Durante o debate, os participantes apresentaram diferentes perspectivas sobre a organização do Estado, o funcionamento da economia, a participação política dos cidadãos e os desafios da democracia no país.
Na sua intervenção, Rafael Capapelo, representante da JMPLA, defendeu o socialismo democrático como orientação ideológica do MPLA, destacando os princípios do humanismo, da liberdade, da igualdade e da solidariedade.
O responsável fez uma abordagem à evolução histórica do partido, referindo o alinhamento com o bloco soviético durante a Guerra Fria e a posterior adopção do socialismo democrático, na sequência das mudanças políticas internacionais e da introdução do multipartidarismo em Angola.
Segundo explicou, estes princípios orientam a visão política do partido e a sua estratégia governativa, associada aos planos de desenvolvimento nacional.
Por sua vez, Alberto Cacumba, representante do Partido Liberal, defendeu o liberalismo, com destaque para a liberdade individual, a propriedade privada, a iniciativa empresarial e a livre concorrência.
O interveniente considerou que o Estado não deve assumir simultaneamente o papel de regulador e de agente económico, criticando a sua presença em diferentes empresas públicas e defendendo uma economia de mercado com menor intervenção estatal.
Cacumba apontou ainda a meritocracia como princípio para garantir oportunidades aos cidadãos, independentemente da filiação partidária, e defendeu que a prosperidade deve resultar do esforço e da capacidade individual.
O representante do Partido Liberal manifestou também reservas em relação ao socialismo, argumentando que a concentração excessiva de poderes económicos no Estado pode limitar a liberdade dos cidadãos e o funcionamento do mercado.
Já Florindo Soquila, representante da JURA, identificou a UNITA como uma organização de centro-direita, sustentada em princípios como a justiça social, a igualdade de oportunidades, o pluralismo político e a democracia competitiva.
Na sua exposição, defendeu a soberania popular e a alternância democrática, considerando que cabe aos cidadãos escolher, através do voto, os responsáveis pela condução do país.
O interveniente destacou igualmente a importância da descentralização e da implementação das autarquias locais, associando o poder local ao desenvolvimento, à participação dos cidadãos e à melhoria da governação.
Soquila defendeu ainda a adopção de um modelo semipresidencial, com legitimidade eleitoral própria para o Presidente da República e para os deputados, considerando necessária uma maior separação e equilíbrio entre os órgãos de soberania.
Durante a sua intervenção, criticou a concentração de poderes e a ausência de autarquias, apontando estes aspectos como obstáculos à descentralização política e administrativa.
Práticas políticas e democracia em debate
O especialista em Ciência Política Daniel Mayfuila chamou a atenção para a necessidade de avaliar as ideologias não apenas pelos princípios inscritos nos programas partidários, mas também pelas práticas dos partidos e dos responsáveis políticos.
Na sua análise, considerou que as acções governativas devem corresponder aos valores ideológicos anunciados, defendendo uma avaliação baseada nos resultados concretos das políticas públicas.
Mayfuila abordou igualmente a diferença entre políticas de Governo e políticas de Estado, defendendo a continuidade de medidas estruturantes, mesmo quando ocorrem mudanças na liderança política.
O debate ficou marcado por divergências entre os representantes, sobretudo em torno da história política nacional, da democracia interna dos partidos, da economia de mercado e do papel do Estado na sociedade.
As discussões abordaram também a liberdade de imprensa, o direito à manifestação, a distribuição dos recursos públicos e a necessidade de garantir condições de maior igualdade na participação política.
Jovens questionam governação e alternância política
Na sessão de perguntas e respostas, os jovens colocaram questões sobre a capacidade das diferentes ideologias para responder aos problemas económicos e sociais de Angola, com destaque para o desemprego, a pobreza, a corrupção e as dificuldades enfrentadas pelas famílias.
Um dos participantes questionou o representante da JMPLA sobre a relação entre os princípios do humanismo e da justiça social defendidos pelo MPLA e os problemas sociais que persistem no país.
Também foram levantadas questões sobre a democracia interna dos partidos, a experiência histórica da UNITA, a meritocracia no acesso às oportunidades e a necessidade de maior equilíbrio entre os poderes do Estado.
Um dos momentos de maior reflexão ocorreu quando um jovem apelou à superação das rivalidades políticas, defendendo que as organizações partidárias devem concentrar-se na melhoria das condições de vida dos angolanos.
O participante considerou que a juventude precisa de respostas concretas para os seus problemas e de uma governação capaz de responder às necessidades da população.
A mesa-redonda terminou com novas intervenções dos participantes e respostas dos integrantes do painel, depois de cerca de quatro horas de debate, iniciado às 16h20 e encerrado às 20h33.

