Gangsta defendia o hip-hop como instrumento de intervenção social em Angola

O activista angolano Nélson Adelino Dembo, conhecido artisticamente como Gangsta, defendia o hip-hop como uma filosofia de vida e um instrumento de intervenção social, capaz de promover o pensamento crítico, a valorização da identidade africana e a denúncia dos problemas da sociedade.

Numa entrevista concedida ao Hold On Angola, o rapper, escritor e promotor de espectáculos abordou a evolução do movimento hip-hop em Angola, as dificuldades enfrentadas pelos artistas e a importância do activismo na cultura urbana.

Natural do bairro do Sambizanga, em Luanda, onde nasceu a 7 de Novembro de 1977, Nélson Dembo frequentou o Colégio Viriato e estudou até à quarta classe, segundo informações biográficas disponíveis. Foi também trabalhador e co-fundador da Rádio MFM.

Hip-hop como filosofia de vida

Durante a entrevista, Gangsta afirmou que o hip-hop ultrapassa a dimensão musical, constituindo uma forma de interpretar a realidade e compreender os problemas sociais.

Na sua perspectiva, o movimento contribuiu para reforçar a identidade angolana e africana entre os jovens, incentivando a procura do conhecimento e a reflexão sobre as condições de vida nas comunidades.

O artista considerava que as dificuldades do hip-hop angolano não deveriam ser analisadas isoladamente, mas relacionadas com questões mais amplas da sociedade, incluindo as condições económicas, o acesso à educação e a falta de oportunidades para a juventude.

Gangsta apontou ainda os custos dos equipamentos e materiais artísticos como obstáculos ao desenvolvimento de algumas expressões da cultura hip-hop, nomeadamente o grafíti e outras manifestações urbanas.

História do rap angolano

Ao abordar as origens do rap em Angola, o activista rejeitou a ideia de que os SSP teriam introduzido o género musical no país. Reconheceu, contudo, a importância do grupo na abertura de espaço para a discografia do rap angolano, após o lançamento do primeiro disco, em 1996, segundo a sua descrição.

Na entrevista, mencionou vários artistas e grupos que, na sua opinião, contribuíram para o desenvolvimento do movimento desde o início da década de 1990, entre os quais Kool Klever, New Boy, Father Mak, Soldados de Rua, Atitude Violenta, Duplo V e Consciência Activa.

Gangsta destacou igualmente a importância de preservar a memória dos pioneiros do hip-hop nacional, defendendo que os artistas que alcançaram maior reconhecimento não deveriam esquecer aqueles que ajudaram a construir o movimento.

Activismo e intervenção pública

O activista considerava o envolvimento cívico uma componente essencial do hip-hop, defendendo que os artistas deveriam participar na discussão dos problemas sociais e políticos do país.

Na entrevista, afirmou que pretendia continuar ligado ao activismo e recordou ter participado numa discussão sobre hip-hop no Parlamento angolano, em 25 de Agosto de 2003.

Na altura, anunciou também a intenção de publicar um livro intitulado Bumerangue, destinado a abordar os conceitos e a história do hip-hop em Angola e a homenagear figuras que contribuíram para o surgimento do movimento.

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