O MPLA perante um novo fraccionismo

A história política de Angola parece caminhar em círculos. Em diferentes épocas, mudam-se os protagonistas, alteram-se os discursos e reinventam-se as estratégias, mas permanece intacta uma característica central do poder angolano: a dificuldade em lidar com a divergência interna. Hoje, o MPLA volta a confrontar-se com sinais de um novo fraccionismo, fenómeno que, em Ciência Política, designa a oposição organizada de uma facção dentro do próprio partido, do topo às bases.

O episódio mais marcante desse fenómeno ocorreu em 1977, quando figuras como Nito Alves, José Van-Dúnem, Sita Valles, Bakalof e Monstro Imortal desafiaram a direcção do MPLA liderada por Agostinho Neto. Nito Alves apresentou as conhecidas “13 teses”, sustentadas em reivindicações de justiça económica, racial e social. O grupo denunciava o afastamento entre a elite dirigente e as bases populares do partido, procurando afirmar-se como representante dos excluídos e dos sectores menos privilegiados da sociedade angolana.

Quase cinco décadas depois, os ecos desse passado voltam a surgir no cenário político nacional. Higino Carneiro reuniu membros do MPLA descontentes com a governação de João Lourenço e apresentou a sua candidatura à liderança do partido. O argumento central repete um discurso já conhecido na história política angolana: o topo distanciou-se das bases.

A crise económica e social que atravessa o país intensificou esse mal-estar interno. As políticas de ajustamento estrutural, implementadas no âmbito da cooperação entre o governo angolano e o FMI, agravaram o custo de vida e reduziram significativamente o poder de compra da população. O descontentamento já não se limita à oposição tradicional; atinge também militantes históricos do próprio MPLA, muitos deles afectados pelas consequências económicas das políticas adoptadas pelo Executivo.

Nesse contexto, Higino Carneiro transformou-se numa figura incómoda para a actual liderança. Nos últimos meses, tem sido alvo de críticas públicas e ataques verbais protagonizados por João Lourenço em discursos e entrevistas. Ainda assim, o general mantém uma postura cautelosa e serena, evitando confrontos directos, enquanto reforça apoios junto de sectores internos do partido.

Ao mesmo tempo, crescem denúncias de obstáculos colocados à sua candidatura. Há relatos de pressões sobre secretários municipais e provinciais, dificuldades impostas à regularização de quotas e actualização de dados de militantes, além de alterações nas regras internas durante o próprio processo político. Para muitos observadores, essas práticas revelam um ambiente de exclusão interna que recorda, ainda que em circunstâncias diferentes, os métodos utilizados durante momentos críticos da história do partido.

Nos últimos dias, a tensão política ganhou novos contornos com a reabertura de feridas históricas relacionadas ao 27 de Maio de 1977. A descoberta e exposição de valas comuns contendo restos mortais das vítimas daquele período foram interpretadas por sectores críticos como uma estratégia de intimidação política dirigida aos adversários internos do regime.

Contudo, Angola de 2026 já não é a Angola de 1977. O contexto internacional mudou, a sociedade tornou-se mais conectada e as redes sociais reduziram significativamente o controlo absoluto da informação. A maturidade política de parte da sociedade civil e o maior acesso à comunicação dificultam a repetição de tragédias em larga escala como as ocorridas no passado.

Enquanto isso, cresce entre sectores críticos a percepção de que o MPLA enfrenta um processo gradual de desgaste interno. Para esses sectores, o partido deixou de priorizar a resolução dos problemas estruturais da população e concentrou-se essencialmente na manutenção do poder político. As críticas estendem-se também à gestão dos recursos naturais do país e às relações económicas internacionais, frequentemente apontadas como incapazes de gerar benefícios sociais proporcionais para a população.

O paradoxo angolano continua evidente: províncias ricas em petróleo, diamantes e outros recursos minerais permanecem marcadas pela precariedade dos serviços sociais básicos. Entre a abundância natural e a pobreza social, instala-se um sentimento crescente de frustração colectiva.

E, como tantas vezes acontece nos sistemas políticos dominados por partidos hegemónicos, o maior perigo talvez já não venha da oposição externa, mas das fissuras que começam a abrir-se dentro da própria estrutura do poder.

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