Era uma vez, num reino onde o sol castiga as certezas e a névoa esconde as contas, um palácio erguido sobre a arte de moldar as almas. Chamavam-lhe, nos corredores sussurrantes, o Gabinete dos Ventos, uma estrutura tão estratégica que não soprava apenas palavras: fabricava narrativas, fiscalizava pensamentos e, quando necessário, comprava consciências. A sua mina de ouro não estava no subsolo, mas no silêncio opaco com que irrigava vontades. Ninguém sabia ao certo quanto custava, quem pagava ou quem cobrava. E era justamente essa névoa que lhe garantia poder.
À frente dos Ventos estava um conselheiro hábil, daqueles que conheciam cada nervo do reino. Habitava o décimo andar de uma torre de marfim, tão próximo do trono que quase lhe ouvia a respiração. Do alto, via o formigueiro dos súditos e sabia que poucos suspeitavam da engenharia invisível que lhes guiava os passos. Ele próprio se julgava senhor do destino, até ao dia em que o decreto real lhe chegou sem aviso: devia trocar o gabinete dos mapas secretos por uma escolinha de rádio, modesta, perdida num rés-do-chão da burocracia.
Foi como se o rei, num gesto sem explicação, lhe dissesse: “Saia do décimo andar e vá habitar o primeiro degrau da escada.” Uma queda em pleno voo, disfarçada de nomeação. Os cortesãos mais velhos, conhecedores das brutais geometrias do poder, viram logo o que estava em jogo: não se tratava de um prémio, mas de um cartão vermelho embrulhado em papel de honra. Ali, a entronização trazia o cheiro do degredo.
Espantou o reino, porém, a reação do conselheiro: aceitou. Baixou a cabeça, arrumou os segredos numa pasta e desceu as escadas como quem desce à própria insignificância. Não gaguejou um “não”, não pediu licença para tossir uma demissão. No reino inteiro, as palavras “demito-me” e “recuso” eram tão raras como a chuva no deserto. Havia uma cultura invisível, mais pesada do que as leis escritas: a cultura de engolir sapos com vénias, de nunca negar uma nomeação, ainda que ela soubesse a cinzas. Recusar era rebeldia. Demitir-se era ofender a mão que alimenta. E quem ousasse construir o próprio destino seria logo acusado de ingratidão ou, pior, de independência.
Ora, o antigo senhor dos Ventos, que durante anos projetara narrativas para os outros revelou-se, na hora da verdade, um homem fraco. Incapaz de tomar nas mãos o leme do seu barco. Teimoso em ceder, sim, mas não em resistir. Foi mais fácil deixar que o poder brincasse com ele do que encarar o medo do desamparo. E assim a corte inteira assistiu a um estranho bailado: enquanto o rei, com um sorriso opaco, exercia a sua força através de mecanismos que ninguém sabia explicar, nomeações que são armadilhas, exonerações que são chicotadas, o súbdito exemplar ia murchando, degrau a degrau, sem um grito.
A mina de ouro ficou nas mãos de outro. O conselheiro caído limitou-se a gerir a sua miniatura. E a névoa, essa, continuou a cobrir o palácio, cada vez mais densa, cada vez mais cara, cada vez menos vigiada.
Passado o espanto, os mais sábios do reino começaram a perguntar, em voz baixa, o que prende um homem a aceitar o que o diminui. E perceberam que não era apenas o medo. Era também a falta de uma palavra simples e perigosa: não. Numa organização fechada, erguida sobre lealdades caninas e favores por cobrar, negar uma nomeação é um gesto quase revolucionário, uma fenda na muralha. Mas, sem essa fenda, o poder absoluto pode brincar eternamente com peças humanas, movendo-as do décimo andar para o rés-do-chão, e do rés-do-chão para o esquecimento, enquanto todos aplaudem.
A verdadeira desgraça do conselheiro, concluíram, não foi ter caído. Foi ter aceitado a queda como se fosse um voo. Não foi perder o ouro; foi entregar a chave do próprio destino sem nunca ter aprendido que, às vezes, a única resposta digna diante de um cartão vermelho é não entrar em campo.
E assim termina esta parábola, tirada de um caso bem recente, em que Norberto Garcia, ex-homem forte do gabinete de acção psicológica, estrutura-mãe das narrativas estratégicas, com um orçamento tão opaco quanto a sua missão, se viu nomeado para dirigir a Rádio Escola. Caiu do décimo andar da Presidência para o primeiro degrau de um projecto menor. Não se demitiu. Não recusou. E o reino, que não tem o hábito de ver alguém rejeitar um cargo, seguiu a sua rotina, entre a obediência e o silêncio.
Fica a pergunta: quantos conselheiros são precisos cair para que se aprenda, neste chão, a arte de dizer basta? E quanto custa, afinal, a névoa que ninguém fiscaliza?
CRÔNICA| Por Horácio dos Reis, jornalista
