Enquanto uns “zeram o game” — expressão que virou sinônimo de vitória fácil num país onde quase ninguém vence nada — outros reclamam porque até a banana do pequeno-almoço lhes foi tirada. E, no meio dessa distopia tropical, o MPLA ergue, de raiz, uma sede multimilionária no coração de Luanda. Um palácio político que reluz como se estivesse plantado em Zurique, e não numa das cidades mais desiguais do continente.
A imagem do edifício é tão agressiva que lembra uma metáfora histórica: quando Fidel Castro, nos anos duros da Revolução Cubana, construiu hotéis superluxuosos para atrair turistas capitalistas. Numa entrevista, uma jornalista perguntou-lhe se aquilo ainda era “socialismo ou morte”. Fidel, envolto na sua retórica épica, argumentou que o luxo “era estratégico”, um mal necessário, uma espécie de vitrine revolucionária. Mas o que acontecia, na prática, era simples: hotéis brilhavam para estrangeiros enquanto o povo continuava na fila do pão.
Angola entra agora no mesmo capítulo, mas com uma ironia ainda mais cruel: o MPLA não precisa de atrair capital estrangeiro para justificar o hiper luxo. Constrói para si próprio. Não é vitrine — é trono. E um trono pago não com quotas dos seus militantes, como seria normal numa democracia minimamente séria, mas com verbas arrancadas ao Orçamento Geral do Estado, dinheiro que deveria irrigar escolas, hospitais, transportes, universidades, centros de saúde, estradas, merendas escolares, bibliotecas… enfim, tudo o que um país com 50 anos de independência deveria ter como básico.
A nova sede do MPLA é, portanto, mais do que um edifício: é um monumento à ostentação em terra de miséria. É a celebração arquitetónica da desigualdade, uma muralha de vidro e aço cercada por bairros onde a água chega em camiões e a eletricidade é um visitante tímido. É o símbolo de um poder que, em vez de se envergonhar da pobreza que produz, escolhe construir catedrais para celebrar a sua própria longevidade.
Num país onde jovens fogem para onde o azar não seja tão garantido, onde centenas de famílias disputam restos de comida nos contentores, onde o salário mínimo não dá para uma semana de vida, o luxo do partido no poder adquire um contorno quase obsceno. Não há transparência nos custos, não há prestação de contas, não há relatório público, não há debate parlamentar, não há sindicância jornalística permitida — há apenas silêncio, arrogância e o brilho ofuscante da impunidade.
Pior: o MPLA continua a convencer-se de que o país lhe pertence. Governa há cinco décadas e, ainda assim, comporta-se como uma entidade acima da lei e do escrutínio. A nova sede em Luanda é apenas a prova física daquilo que os angolanos já sabiam: enquanto o povo tenta sobreviver, o partido constrói palácios; enquanto as famílias lutam contra a fome, o partido acumula capitais; enquanto os jovens perdem a esperança, o partido cimenta o seu império de luxo.
É como se Angola tivesse sido dividida em dois mundos paralelos: um de pó, fome, filas e abandono; outro de mármore, ar condicionado e reuniões onde se decide o destino de milhões sem que esses milhões tenham sequer lugar na mesa.
Fidel Castro tentou justificar o luxo como estratégia. O MPLA nem isso. Aqui, o luxo é apenas luxo — e o povo, apenas estatística.
E assim seguimos: um país a cair pelas frinchas, enquanto no centro de Luanda se ergue um palacete que não celebra a victória do povo, mas sim a victória do poder sobre ele.
