A primeira Campanha Nacional de Vacinação contra o Cancro do Colo do Útero marcou, no final de outubro, um momento inédito para o país. No Complexo Escolar Hélder Albuquerque nº 173, em Moçâmedes, província do Namibe, a Primeira-Dama, Ana Dias Lourenço, descreveu o arranque da iniciativa como “um passo histórico para Angola”. O objectivo: vacinar 2,2 milhões de meninas entre 9 e 12 anos.
A primeira fase — com duração de dez dias — tinha como meta abranger 1,3 milhão de meninas em idade escolar. Uma segunda etapa, dirigida às meninas fora do sistema de ensino, deverá começar em dezembro, antes da inclusão definitiva da vacina no calendário de imunização em 2026.
“Doía um pouco, mas a mamã disse que era importante”, contou a pequena Sandra Carlos, de dez anos, logo após receber a dose em Moçâmedes.
Esforço nacional, metas ambiciosas
Coordenada pelo Ministério da Saúde (MINSA) e apoiada pela OMS, PNUD, UNICEF, GAVI e Banco Europeu de Investimento, a campanha mobilizou 1.667 equipas do Programa Alargado de Imunização (PAI), que percorreram escolas, centros de saúde e comunidades rurais.
A ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta, classifica a operação como “um esforço sem precedentes na história da saúde pública angolana”. Segundo dados provisórios divulgados a 7 de novembro, 866.027 meninas — 39% da meta nacional — tinham sido vacinadas.
Apesar do avanço, o número ficou abaixo dos esperados 70%. O Governo decidiu prolongar a campanha até 18 de novembro, com a intenção de alcançar mais 280 mil meninas.
Luanda: o maior desafio urbano
Luanda, com a maior população-alvo, recebeu o peso mais significativo da operação: 550 mil meninas distribuídas por 296 equipas de vacinação.
Nos mercados da capital, algumas meninas vacinadas contaram experiências de receios iniciais, como Maria Luísa, de 12 anos:
“Estava com medo, mas a minha avó disse que era para o meu bem.”
A campanha despertou também memórias dolorosas. Ana Cardoso, de 42 anos, levou as filhas ao posto de vacinação depois de perder a irmã para o cancro do colo do útero:
“Vi a minha irmã definhar por meses. Esta vacina é uma bênção — nenhuma menina deveria ficar de fora.”
Províncias: adesão e dificuldades
Em Cuanza Norte, a adesão em N’dalatando animou as autoridades. “Não doeu nada”, afirmou a estudante Rosa Almeida Cristóvão, de 11 anos. Porém, como relata a tutora Anita Gaspar Mendes, ainda há mães que “desencorajam as filhas por falta de informação”.
No Cuando Cubango, o desafio é geográfico: longas distâncias, chuvas e difícil acesso às aldeias.
“A dispersão das famílias obriga-nos a percorrer longos trajetos”, explica João Chinhigue, Diretor Provincial de Saúde.
Desinformação ainda preocupa
Apesar do clima positivo, rumores sobre infertilidade e efeitos colaterais continuam a preocupar as autoridades sanitárias. Em Caxito, uma mãe questionou se a vacina “poderia afectar a fertilidade”. A equipa de saúde desmentiu a informação, lembrando que a vacina Cecolin é aprovada pela OMS.
Para travar a desinformação, foi criada a Rede de Influenciadores de Saúde Pública, que usa escolas, rádios comunitárias e redes sociais para sensibilizar as famílias.
Suzete Carmo, sobrevivente de cancro do útero, faz parte da iniciativa:
“Quem espalha boatos nunca foi a um hospital oncológico. Se vissem o sofrimento das mulheres em tratamento, não teriam dúvidas.”
Um marco para a saúde pública angolana
Para Helga Freitas, diretora Nacional de Saúde Pública, Angola está finalmente a dar um passo há muito esperado:
“A partir de 2026, todas as meninas de nove anos serão vacinadas nos centros de saúde. O país esperou 16 anos por este momento.”
O secretário de Estado da Saúde, Carlos Pinto de Sousa, destaca o ritmo acelerado da operação:
“Estamos a vacinar cerca de 100 mil meninas por dia. É apenas o começo.”
O impacto começa a ser visível em todo o país. De Namibe a Luanda, passando pelas zonas rurais, a mensagem é repetida por profissionais, famílias e sobreviventes: prevenir salva vidas.
“As meninas vacinadas hoje serão as mulheres que vencerão o cancro amanhã”, resume Helga Freitas. In Hold On Angola | Vaccines Work
