É difícil descrever… e mais ainda escrever. Mas a realidade é esta: Angola enfrenta um dos seus maiores desafios estruturais – a fome – e esta não se resolve com discursos, mas sim com acções concretas.
Filho desta Pátria, tenho reflectido longamente sobre os caminhos possíveis para a reconstrução do país, e, mais do que pensamentos utópicos, proponho soluções reais, aplicáveis, baseadas em experiências bem-sucedidas de outros países.
Há poucos dias, cidadãos saíram às ruas, não movidos por motivações políticas, mas sim por desespero. Fome! Esta é a verdade crua. A fome que leva ao saque, que tira a dignidade e transforma o cidadão em sobrevivente.
A falência do investimento agrícola
É legítimo perguntar: com tantos licenciados que o país forma, quantos são agrónomos? Quantos, por município, estão aptos a garantir a segurança alimentar das suas comunidades? A ausência de quadros técnicos na área agrária evidencia uma falha estratégica que atravessa décadas.
Em 1975, com a independência, Angola adoptou um modelo que valorizava o camponês e o operário. No entanto, volvidos quase 50 anos, o sector agrário continua estagnado. O outrora respeitado Instituto Agrário do Chivinguiro, na Huíla, permanece como símbolo de um passado promissor que não encontrou continuidade.
O Estado tem-se apoiado excessivamente em apoios e empréstimos externos, fomentando uma cultura de dependência que se espelha no próprio povo. Mas a reconstrução nacional exige reciprocidade – um esforço conjunto entre Governo e cidadãos.
O povo e o poder de escolha
O povo angolano, por sua vez, habituou-se à dependência. Muitos não identificam as reais necessidades das suas comunidades. O culto ao título académico eclipsou o valor da produção agrícola. Ser doutor é sinónimo de prestígio, enquanto a agricultura continua a ser vista como ocupação de último recurso.
Esta mentalidade limita a capacidade produtiva do país. Não se pode esperar que o Governo defina o futuro de cada cidadão. A mudança parte de dentro. E o comércio informal, que hoje é dominado por cidadãos estrangeiros, é exemplo do espaço que os próprios angolanos abriram mão.
A oposição política, por seu lado, pouco contribui para um debate construtivo. Em vez de ideias, oferecem críticas. Em vez de projectos, slogans. A verdade é que nenhum partido conseguirá resolver os problemas do país sem envolver o povo de forma activa e responsável.
Agricultura como prioridade nacional
A mudança de governação, por si só, não resolverá a fome. A prioridade deve ser a reforma agrária e a valorização do ensino técnico. É fundamental um investimento massivo na formação de agrónomos e técnicos do campo. Sem produção agrícola sustentável, o país permanecerá refém da importação de alimentos básicos.
A fome é raiz de muitos males. Ela gera corrupção, mina a ética e destrói o carácter. O jurista, o médico, o professor – todos sucumbem quando falta o essencial: comida.
O combate à fome não pode ser secundarizado. A sua resolução solucionará indirectamente outros problemas sociais. O Governo precisa, com o povo, de realizar um diagnóstico profundo das reais necessidades nacionais.
Hora de repensar o futuro
Há uma contradição entre os quadros formados e as necessidades do país. A produção universitária não tem sido orientada por uma estratégia nacional de desenvolvimento. Esta desconexão revela a ausência de uma política de planeamento integrada entre o Estado e a sociedade.
É urgente a emergência de uma nova consciência política e social. Uma força que compreenda o valor da terra, que respeite o mar e que valorize o potencial humano como motor do desenvolvimento.
No Movimento de União Nacional (MUN), defendemos que o reerguer da Pátria começa na terra, no homem e no mar. A agricultura deve ser pilar da soberania nacional. Sem ela, não haverá dignidade, nem prosperidade.
Por Karl Manuel Sarney Mponda
