Somente em julho, o Fundo Monetário Internacional (FMI) intensificou o escrutínio sobre os seus programas de financiamento no continente africano, com destaque para os casos do Egito e da Etiópia, cujos empréstimos têm gerado preocupações sobre a sustentabilidade da dívida soberana em África.
Apesar de serem frequentemente descritos como instrumentos de estabilização económica, os programas do FMI estão a revelar-se um fardo crescente para vários países africanos, limitando a capacidade de investimento em sectores produtivos e sociais.
O Egito, que lidera a lista dos países africanos mais endividados junto do FMI, recebeu 1,2 mil milhões de dólares (cerca de 1 bilião de kwanzas) após a quarta avaliação do seu programa de 8 mil milhões de dólares. Com este último desembolso, o montante total concedido ao país eleva-se a 3,5 mil milhões USD (2,9 biliões Kz). No entanto, o FMI alertou que o país enfrenta “alto estresse soberano”, prevendo que a dívida externa egípcia salte dos atuais 162,7 mil milhões USD (138,3 biliões Kz) para mais de 202 mil milhões USD (171,7 biliões Kz) até 2030.
Na Etiópia, a situação não é menos delicada. Após uma terceira revisão bem-sucedida, o país recebeu 262 milhões USD (222,7 mil milhões Kz), mas continua em negociações com credores para reestruturar 8,4 mil milhões USD (7,1 biliões Kz), ao abrigo do Quadro Comum do G20. Paralelamente, enfrenta a obrigação de amortizar um Eurobond no valor de 1 mil milhão USD (850 mil milhões Kz).
O caso do Senegal exemplifica os riscos da má gestão da dívida: o FMI suspendeu os desembolsos após a revelação de que a dívida pública estava subnotificada, passando de 74% para mais de 100% do PIB. A agência de notação financeira S&P rebaixou a classificação do país, e os financiamentos estão congelados até à apresentação de um plano de consolidação credível.
De acordo com um relatório publicado pelo FMI a 8 de julho, a estabilização da dívida africana exige reformas fiscais favoráveis ao crescimento, instituições mais fortes e uma estratégia macroeconómica robusta, geralmente supervisionada pelo próprio Fundo.
A situação levanta questões sobre a real utilidade desses programas num contexto em que as condições exigidas – frequentemente associadas a políticas de austeridade – podem limitar o espaço de manobra para o desenvolvimento económico autónomo.
Os 10 países africanos mais endividados junto do FMI (julho de 2025)

A análise dos dados do próprio FMI indica que os créditos aumentaram significativamente no último mês para países como Egito, Costa do Marfim, Gana, RDC, Etiópia e Tanzânia. Já em outras economias, observou-se ligeira redução dos saldos em dívida.
À medida que cresce a pressão global por matérias-primas e a necessidade de estabilidade financeira, o futuro económico do continente dependerá em grande parte da capacidade de renegociar termos mais justos e construir modelos económicos menos dependentes da dívida externa.
