Por entre os bastidores sombrios da política mundial, onde o poder se sustenta mais na eliminação dos opositores do que na persuasão democrática, o envenenamento se impõe como uma arma silenciosa e covarde — eficiente, limpa, sem estampidos. Os ditadores modernos, como os tiranos clássicos, sabem que a bala pode gerar mártires, mas o veneno fabrica silêncios.
Os serviços secretos russos, herdeiros diretos da KGB soviética, aperfeiçoaram essa técnica com um requinte macabro. Quem não se lembra do caso de Alexander Litvinenko, ex-agente russo que, em 2006, morreu envenenado com polônio-210 em Londres? Ou ainda de Alexei Navalny, principal opositor de Vladimir Putin, que sobreviveu a uma tentativa de envenenamento em 2020 com o agente neurotóxico Novichok? O objectivo era claro: calar, traumatizar, humilhar e mandar um recado aos demais — a oposição tem preço, e esse preço é a vida.
Em outros continentes, o modus operandi se repete com ligeiras adaptações. Na Coreia do Norte, o meio-irmão de Kim Jong-un, Kim Jong-nam, foi assassinado em 2017 com VX, um agente neurotóxico letal, em pleno aeroporto de Kuala Lumpur. Já na África, regimes ditatoriais usaram e ainda usam o veneno como método seletivo de extermínio político, ora para disfarçar execuções, ora para provocar pânico interno.
E Angola?
Em Angola, a ditadura do MPLA, sob a fachada de um regime constitucional, optou nos últimos anos por refinar a violência política. Já não basta prender ou torturar — agora se mata em silêncio, com doses cirúrgicas de substâncias letais. O envenenamento é hoje uma das ferramentas preferidas do autoritarismo, especialmente quando o alvo é “incômodo demais para permanecer vivo, mas conhecido demais para morrer com barulho”.
O caso de Raul Danda, ex. vice-presidente da UNITA, é emblemático. Envenenado em dezembro de 2021, exactamente no dia do aniversário de Adalberto Costa Júnior, o actual líder do partido, seu desaparecimento foi mais que uma coincidência trágica — foi uma mensagem do Gabinete de Acção Psicológica, uma estrutura obscura do regime que age nas sombras para manipular o medo e controlar a narrativa. No ano seguinte, no mesmo dia, Rui Galhardo que até passou a colaborar com o regime, foi igualmente envenenado no dia de aniversário do Adalberto Costa Júnior . Coincidência? Pouco provável. A lógica era a mesma: desestabilizar emocionalmente o Presidente da UNITA e coordenador da Frente Patriótica Unida, gerar pânico interno e romper a coesão do adversário.
Outros nomes somam-se à lista: Demóstenes Chilingutila, Jaka Jamba, ambos vítimas do mesmo padrão de perseguição. Depois das eleições de 2022, o alvo foi mais simbólico ainda: General Camorteiro, o oficial da UNITA que assinou os Acordos de Paz de 2002. O regime não permitiu que ele subisse à chefia do Estado-Maior das Forças Armadas Angolanas. Sua morte, por envenenamento, foi um recado direto à possibilidade de partilha real do poder militar.
Nas províncias, o veneno também faz vítimas. No Bié, um jovem deputado da UNITA foi envenenado recentemente. E entre os activistas, os casos se acumulam: Carbono Casimiro, Beiman, Albano Bingo Bingo — todos eliminados silenciosamente entre os últimos cinco anos.
Esses métodos têm nome: necropolítica. O termo, cunhado por Achille Mbembe, descreve o uso do poder para decidir quem pode viver e quem deve morrer. E o MPLA conhece bem esse tipo de governança. Já o mostrou em 27 de Maio de 1977, quando milhares foram executados após a tentativa de manifestação contra a exclusão social; em 1992, nas matanças pós-eleitorais; e na sexta-feira sangrenta de 1993, quando o sangue escorreu pelas ruas de Luanda em nome da “segurança do Estado”.
Nos anos 2000, as técnicas ficaram mais sinistras: Kassule e Kamulingui lançados ao Rio Dande para alimentar jacarés, Hilbert Ganga executado à sangue frio, caso Kalupeteka (2015), caso Kafunfo (2021) e o desaparecimento até hoje sem resposta de Miloca, a comentarista de rádio que sumiu em 2012.
Inocêncio de Matos, Silvio Dala, M. Stop — todos foram vítimas de um Estado que transformou a função pública em campo de caça política. E agora, o recente caso do deputado Diamantino Mussokola, morto em circunstâncias estranhas, choca a nação e reacende o medo: ninguém está a salvo quando o poder se sustenta pelo medo da morte.
A ditadura envenena não só corpos, mas também consciências. Faz da política um laboratório de perversidades, onde o silêncio é regra, e a morte, uma linguagem cifrada de comando. E enquanto a Justiça continuar cega, e a sociedade continuar anestesiada, o veneno seguirá fluindo — gota a gota — até que a esperança morra em silêncio.
“Quem se cala diante da morte calculada dos outros, consente com a própria sentença.”
Por Hitler Samussuku
