O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) encerrou oficialmente os seus escritórios em Angola após 43 anos de presença no país. A medida, motivada por cortes orçamentais severos, não significa, segundo a organização, o abandono dos mais de 55 mil refugiados e requerentes de asilo atualmente acolhidos em território angolano.
“Não estamos a desligar as luzes nem a deixar os refugiados para trás”, assegurou Emmanuelle Mitte, representante do ACNUR em Angola, durante uma visita ao campo do Lóvua, na província da Lunda Norte, uma das principais áreas de acolhimento de deslocados da República Democrática do Congo (RDC).
A operação exigia um financiamento anual de cerca de 29 milhões de dólares, mas em 2025 os doadores internacionais disponibilizaram menos de 10% desse valor. “Sem alternativa, fomos obrigados a reduzir drasticamente a nossa presença”, lamentou Mitte, em declarações à agência Lusa.
O encerramento implica ainda o fim de 40 postos de trabalho, incluindo 30 de quadros nacionais, cujas competências, acredita Mitte, poderão ser aproveitadas por outras organizações ou pelo setor privado.
Campo do Lóvua entre os mais afetados
Criado em 2017, o campo do Lóvua foi uma resposta ao êxodo provocado pelos conflitos no Kassai, na RDC. No auge, acolheu mais de 35 mil pessoas, mas atualmente abriga cerca de seis mil, o equivalente a 10% dos beneficiários do ACNUR em Angola.
Os cortes já afetam serviços essenciais como a distribuição de alimentos e o abastecimento de água, agravando uma situação delicada, sobretudo perante o surto de cólera que atinge várias regiões do país.
“Estamos a trabalhar com parceiros para encontrar soluções e complementar o orçamento disponível”, afirmou a responsável, sublinhando a importância da autonomia das comunidades. “As pessoas precisam de ser autossuficientes. É uma questão de dignidade”, acrescentou.
Apoio à integração e à subsistência
Nos últimos anos, o ACNUR e os seus parceiros capacitaram os refugiados com competências práticas. Muitos tornaram-se pequenos agricultores, produzindo arroz, milho e hortaliças para consumo e venda. Outros participaram em formações de costura e empreendedorismo, contribuindo também para a economia local.
Apesar dos avanços, a falta de documentação continua a ser um dos maiores obstáculos à integração plena. “O Governo angolano deu sinais positivos e o registo de refugiados foi recentemente retomado, o que nos dá esperança”, afirmou Mitte.
Presença remota e apelo à solidariedade
Embora a presença física termine, o ACNUR continuará a operar remotamente, sob coordenação da delegação regional da África Austral. A organização compromete-se a manter o diálogo com o Executivo angolano e a monitorizar a situação dos refugiados.
Na véspera do Dia Mundial do Refugiado, assinalado a 20 de junho, Emmanuelle Mitte deixou um apelo à comunidade internacional: “A solidariedade com os refugiados é responsabilidade de todos — governos, empresas e cidadãos. Não podemos virar as costas a quem perdeu tudo.”
O ACNUR iniciou operações em Angola em 1981, tendo desempenhado um papel crucial no repatriamento de mais de meio milhão de refugiados angolanos após a guerra civil. Desde então, a sua missão evoluiu para responder a novas crises humanitárias, com foco nos refugiados urbanos e, mais recentemente, nos deslocados do conflito no Kassai.
