A guerra como último recurso: quando a paz se torna cúmplice da tirania – Hitler Samussuku

A humanidade sempre debateu os limites entre a submissão e a resistência, entre a paz imposta e a guerra necessária. Desde os tempos de Sun Tzu, que ensinou que a guerra é um mal inevitável quando a justiça é negada, até Maquiavel, que alertou que os povos só permanecem livres quando estão dispostos a lutar por sua liberdade, a história nos mostra que há momentos em que a espada deve ser desembainhada não por ambição, mas por sobrevivência. Carl von Clausewitz, o estrategista prussiano, definiu a guerra como “a continuação da política por outros meios”, e em Angola, essa máxima ecoa com uma urgência cada vez mais evidente.

Em 1975, quando os Acordos de Alvor foram traídos e o monopartidarismo foi imposto à força, Jonas Savimbi e a UNITA não tiveram escolha senão resistir. A guerra, naquele contexto, não foi um acto de beligerância gratuita, mas uma resposta legítima à supressão violenta da democracia. A luta armada da UNITA, por mais controversa que seja hoje retratada, foi um factor decisivo para a abertura política dos anos 1990, quando os Acordos de Bicesse consagraram o multipartidarismo e as liberdades fundamentais. Se naquela época a guerra já era justificável, hoje, diante do aprofundamento da ditadura, ela se torna quase um imperativo moral.

O Angola de hoje oferece diariamente motivos mais do que suficientes para que o povo não se resigne. A fome generalizada, o desemprego massivo, a ausência de serviços básicos, a corrupção endêmica e a perseguição sistemática a activistas e opositores mostram um regime que não teme mais sequer disfarçar seu autoritarismo. As sucessivas fraudes eleitorais, a criminalização da dissidência e agora a suspensão arbitrária de deputados da UNITA pelo Parlamento – um órgão que deveria representar o povo, mas que se tornou mero capacho do Executivo – são provas incontestes de que a democracia em Angola é uma farsa. O Tribunal Constitucional, em vez de guardião da lei, transformou-se em instrumento de opressão, anulando o direito dos deputados de fiscalizarem um governo que age acima da lei.

Se no passado a guerra foi necessária para abrir espaço à pluralidade política, hoje ela se justificaria para evitar a completa destruição da nação. Quando um regime fecha todas as vias pacíficas de mudança, quando o povo é esmagado pela miséria e pelo medo, quando as instituições são sequestradas por um grupo que governa para si mesmo, a resistência – em todas as suas formas – deixa de ser uma opção e passa a ser um dever. Como disse Emiliano Zapata, “é melhor morrer de pé do que viver de joelhos”. O povo angolano está diante de uma encruzilhada histórica: ou se organiza e resiste, ou aceita ser enterrado vivo por uma ditadura que não tem mais limites. A UNITA, que no passado lutou contra a exclusão política, hoje teria razões ainda maiores para liderar uma resistência legítima. A questão que fica é: até quando o sofrimento do povo será visto como um preço aceitável para manter no poder aqueles que já provaram não merecê-lo? A história não perdoará os que, em nome de uma falsa paz, cruzaram os braços enquanto a tirania se consolidava.

Por Hitler Samussuku

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