O Ativismo como Reforma da Verdadeira Luta contra a Ditadura em Angola

O 7 DE MARÇO DE 2011

Essa data marca o início da chamada geração de revolucionários angolanos, pejorativamente chamada de os Revús. E mais tarde rotulados como OS FRUSTRADOS SEM SUCESSO ESCOLAR, pelo então Presidente da República de Angola.

“Jovens ‘frustrados’ que não tinham tido sucesso na vida escolar ou no mercado de trabalho.” (JES, em entrevista ao SIC Portugal, 2013)

Esses frustrados e sem sucesso escolar eram, na verdade, jovens intelectuais, formados, que, inspirados nas revoltas populares da Primavera Árabe, começaram a organizar protestos em Luanda, Angola, com o objetivo claro de derrubar a ditadura angolana que já durava 32 anos.

UMA NOVA GERAÇÃO DOS CONTRA

Durante muitos anos, a ditadura vigente em Angola impôs uma narrativa oficial, especialmente através do 27 de Maio, silenciando vozes dissidentes do próprio partido, sociedade civil, escritores, intelectuais e acadêmicos. Essa censura, combinada com o medo de represálias, levou muitos a evitar participar na vida política do país. As consequências desse evento moldam a sociedade angolana contemporânea de tal forma que apenas em março de 2011 Angola registrou sua primeira atividade de protesto após 38 anos.

Esses jovens também marcam o início da primeira geração de intelectuais que começaram a enfrentar o regime por meio da academia e da cultura. O RAP revolucionário, dentro do movimento Hip Hop, começou a ser um instrumento para combater a ditadura. Os jovens, que antes protestavam apenas com suas músicas em espaços limitados, começaram a trazer para as ruas da capital as ações cantadas em suas letras.

Em 2012, os protestos intensificaram-se até o ano de 2013, quando os jovens Isaías Cassule e Alves Kamulingue foram assassinados.

A FALTA DE LEGITIMIDADE POLÍTICA: UMA BASE PARA OS PROTESTOS EM ÁFRICA

“Praticamente todos os países africanos experimentam grandes lacunas de legitimidade que o estado de direito não é capaz de resolver, a menos que uma transformação social profunda seja realizada.” (Mútua, p. 78)

As revoltas em África contra as ditaduras e a falta de legitimidade política eram tão fortes que deixaram de ser protestos para melhorar situações políticas, econômicas ou sociais, tornando-se movimentos pelo derrube dos regimes pós-independências. Esses regimes buscavam apenas o enriquecimento de uma minoria opressora no poder e a conservação dos interesses ocidentais e do imperialismo capitalista, em detrimento da soberania dos países e da melhoria de vida dos seus cidadãos.

Tal como Mútua (2018) argumenta, a falta de legitimidade política nesses países de África é tão profunda que apenas uma transformação social radical, como uma revolução socialista, é capaz de reverter os males causados por esses estados. Inspirados no espírito da Primavera Árabe, esses jovens entenderam que era chegada a hora de começar essa revolução profunda.

AS AGENDAS INTERNACIONAIS E O PAPEL DAS ONGs

“Em janeiro de 2015, os chefes de Estado e de Governo da União Africana adotaram a Agenda 2063, na Etiópia. A visão e os ideais da Agenda servem como pilares para o futuro do continente africano, traduzidos em ações e objetivos concretos.” (ONU, 2016)

A partir daí, foi apresentada uma agenda para essa geração de Revús, com objetivos bem claros: o derrube das ditaduras longínquas africanas, e não apenas a manutenção do sistema político.

Entretanto, foi introduzida a chamada agenda do “ativismo”, claramente uma ação para manutenção dos regimes autoritários, em vez do derrube. Questões como democracia, participação, liberdades fundamentais, eleições livres, justas e transparentes, e autodeterminação nunca fizeram parte dessas agendas.

Por meio de financiamentos externos, majoritariamente vindos do Ocidente, as agendas começaram a ser implementadas por ONGs. Em Angola, após a geração dos 15+2, surgiram e ganharam espaço os “ativistas”, que acreditam que, em vez de lutar para derrubar as ditaduras, precisam fazer ativismo para melhorar as condições de vida dentro delas, por meio de ações cívicas.

DE REVÚS PARA ATIVISTAS: ATÉ ÀS ELEIÇÕES GERAIS DE 2022

Para começar, uma análise comparativa dos dois termos e seus objetivos:

“Um ativista é uma pessoa que defende uma causa, lutando por mudanças sociais, políticas, culturais ou ambientais.” (Michaelis, 2002)

Essa é, talvez, a definição mais clássica de ativismo, cujo objetivo é pressionar democracias consolidadas a melhorarem suas ações. Por outro lado:

“Um revolucionário é, em sua essência, uma pessoa que busca transformar radicalmente a sociedade.” (Fidel, 1953)

Angola é claramente um país que conserva todos os elementos para justificar a necessidade de revolucionários, não ativistas.

Os Revús foram ensinados a acreditar que o objetivo era alcançar apenas as tarefas democráticas. Já os ativistas foram instruídos a reformar a ditadura, agindo localmente, enquanto ignoram a necessidade de mudanças globais profundas.

A OPOSIÇÃO ANGOLANA COMO TUBO DE ESCAPE DA REVOLTA DAS MASSAS

“Podem transcorrer longos períodos em que as forças de oposição não fazem mais do que servir como válvula de escape para descomprimir o descontentamento das massas.” (Edison Urbano, p. 23)

Isso é exatamente o que a FPU (Angola, 2022) e o Podemos (Moçambique, 2024) fizeram diante da vontade popular de uma revolução.

À revolução é nossa. Segue quem quiser.
Vamos estudar revoluções e teorias revolucionárias. Chega de ativismo!

Por: Katró Ungila, Movimento Hip Hop Terceira Divisão.

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