Trovoada turística de rua – Jorge Eurico

Cesária Évora trinou numa das suas mais belas harmonias intitulada “Sodade” “Quem Mostrava Esse Caminho Longe/ Quem Mostrava Esse Caminho Longe? Esse Caminho Para São Tomé”. A Rainha da Morna não diz quem mostrava o caminho longe para São Tomé. A minha avó esteve em São Tomé e Príncipe na década de 40 do século XX. O caminho longe para São Tomé foi-lhe mostrado pelas autoridades portuguesas.

A estória é longa, mas conta-se num só fôlego: Ela esmurrou um funcionário sénior da Administração colonial por ter querido apalpá-la. Foi severamente castigada pela insolência. O castigo consistiu no seu desterro para São Tomé e Príncipe onde permaneceu durante três anos. Dizia que os são-tomenses eram mais dados à boemia que ao trabalho. Que eram mandriões. Quer dizer, alguns (mas quase todos).

Há algo de errado que não bate certo lá para as bandas do Equador. O Palácio Presidencial de São Tomé e Príncipe precisa de ser exorcizado. Para quê? Para expulsar os espíritos malignos que o assombram. Que têm criado turbulência na política são-tomense. O Presidente das “Ilhas Maravilhosas” demitiu, há dias, o Governo. Carlos Vila Nova disse, entre outras coisas, que a exoneração do Executivo liderado por Patrice Trovoada deve-se a uma assinalável incapacidade de solucionar os inúmeros desafios do país e manifesta deslealdade institucional. Falando depressa e bem: Carlos Vila Nova chamou Patrice Trovoada de irresponsável e turista inveterado! Ou seja: Incumpria as suas responsabilidades enquanto Primeiro-Ministro.

Os argumentos invocados por Carlos Vila Nova são sérios. Graves! Risíveis. Sérios e graves porque a ser verdade, as acusações ora feitas mancham o currículo político de Patrice Trovoada. Risíveis porque a forma como foram explicitadas as razões do afastamento do chefe do Governo foram pouco polidas. É uma justificativa que se espera de um capataz da roça “Água Izé” e não de um Presidente da República. Foi à boa maneira dos angolares. Se São Tomé visse o Decreto Presidencial (com olhos de ver) em que se dá nota o afastamento de Patrice Trovoada, não iria acreditar.

Existem certamente outros motivos que ditaram o afastamento de Patrice Trovoada. A estória segundo a qual Patrice Trovoada é caixeiro-viajante e, entre outras coisas, irresponsável, não é por si só um argumento justificável. Patrice Trovoada tem experiência política quanto baste. É a segunda vez que chegou ao cargo de chefe do Governo pelo voto popular. Não é nenhum debutante. Que o Presidente de São Tomé e Príncipe conte outra! A defenestração do Primeiro-Ministro e a desarticulação do seu Governo é uma traquinagem política de Carlos Vila Nova que teve como escopo primacial mostrar o “caminho longe” do olho da rua a Patrice Trovoada. Ou seja: Trovoada agora é turista de rua!

Por Jorge Eurico

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