Amanhã, o calendário marca o nascimento de duas figuras que, em tempos e contextos distintos, dedicaram as suas vidas ao questionamento das estruturas de poder e à defesa dos oprimidos: Karl Marx (1818) e José Mateus Zeca Mutchima (1964).
A analogia: o pensamento e a pratica
Enquanto Marx ofereceu ao mundo a ferramenta intelectual para compreender a luta de classes e a exploração, Zeca Mutchima personifica a aplicação prática da resistência contra aquilo que o movimento considera uma “centralização asfixiante”. Ambos partilham a premissa de que a história não é estática e que a dignidade dos povos depende da sua capacidade de autodeterminação. Onde Marx falava da emancipação do operariado, Mutchima fala da emancipação do povo Lunda Tchokwe.
O Protectorado: uma questão de direito histórico
A causa liderada por Zeca Mutchima não nasce do vazio, mas de uma base jurídica histórica: os Tratados de Protectorado assinados entre 1885 e 1894 entre o Estado Português e os Soberanos Lunda (Mwatianvua e outros soberanos da Monarquia ).
Diferente de uma colónia direta, o estatuto de protectorado pressupunha a manutenção da soberania local sob supervisão (Portugal), algo que o Movimento do Protectorado Português da Lunda Tchokwe (MPPLT) defende ter sido ignorado na transição para a independência de Angola em 1975.
As razões para a autonomia pacífica
A “Autonomia Pacífica” defendida por Zeca Mutchima assenta em três pilares que ecoam a busca por justiça social:
1) Justiça Econômica: A região das Lundas é o coração diamantífero de Angola, mas as suas populações figuram entre as mais pobres. A autonomia (troca da independência da Lunda) visa garantir que a riqueza local beneficie quem nela habita.
2) Identidade Cultural: A preservação da língua, ritos e autoridade tradicional Tchokwe face à homogeneização estatal.
3) Via do Diálogo: Apesar das detenções e períodos de tensão, Mutchima tem reiterado que a solução deve ser política e jurídica, e não militar, apelando ao Direito Internacional e ao diálogo direto com as instituições do Estado Angolano.
Nestes 5 de maio, ao celebrarmos estas duas vidas, celebramos o direito humano de sonhar com sociedades mais justas, onde o poder emana, de facto, da vontade e da história dos seus povos.
