A Partida de um Intelectual Indômito – Jorge Eurico

Avatar By Redacao Jul 5, 2024
Jorge Eurico

O coração de Mário Rui Silva parou de palpitar nesta quinta-feira. Era um dos maiores guitarristas, cantor e compositor angolano. Era um intelectual de alto gabarito. Era a pétala da “fina-flor” do music-hall angolano. Era um homem de trato fino. Era um homem de classe e com classe. Era um homem com “traquejo social”.

A sua forma de ser e de estar agitava os fantasmas dos homens brutos. Daí terem-no bloqueado. Proscrito. Era um homem com dignidade. Não se vergava. Foi discípulo devoto de Liceu Vieira Dias. Absorveu os ensinamentos do seu mestre. Por isso cantou. Encantou. Investigou. Divulgou. Contribuiu para o engrandecimento da cultura angolana. Por ter querido contribuir muito mais foi combatido. Foi varrido pelos “patos bravos” que detêm o poder político.

Consta que foi vítima de doença. Eu diria que Mário Rui Silva morreu devido à canalhice e à casmurrice de todos aqueles que têm o poder de decisão em Angola. A morte do discípulo de Liceu Vieira Dias decorreu (digo eu) da discriminação sistêmica e institucionalizada em Angola, país onde os “mais capazes” são ferozmente combatidos. Mário Rui Silva era olimpicamente ignorado pelas autoridades angolanas. O seu trabalho foi praticamente silenciado.

O seu nome foi perversamente omitido. O propósito era o de fazer com que as novas gerações não conhecessem o seu trabalho brilhante e impecável em prol da cultura angolana. Em compensação era ampla, selecta e ruidosamente aclamado em grandes palcos internacionais. Nunca foi formalmente reconhecido pelas autoridades angolanas. A sua saga confunde-se com a de um outro grande de cultura que também foi desestimado pelo poder político angolano: Waldemar Bastos!

Mário Rui Silva foi um homem com ideias próprias. Muito claras. Era um líder. Um empreendedor. Antes da independência criou o conjunto denominado “Os Jovens”. A vocalista era a mãe do preclaro activista Luaty Beirão. O inditoso elaborou uma Gramática de Kimbundu e uma selecta de contos populares. Os “patos bravos” – avessos à cultura e ao exercício intelectual – não a publicaram. Por birra e nveja. Chateou-se.

Cedo concluiu Mário Rui Silva que os destinos do País estava nas mãos de gente inculta. Por isso mandou-se. Abalou de mala e cuia para geografias onde era valorizado. Onde poderia emprestar o seu saber e fazer sem ser hostilizado. Sem ser politicamente perseguido. Sem ser desprezado. Mário Rui Silva morreu triste porque a Pessoa Colectiva que tem os destinos do País na mão combateu-o por ser um homem culto. Por ser politicamente indomável.

Nascido em Luanda em 1953, Mário Rui Silva vai brilhar, agora, com o seu saber e talento lá no firmamento ao lado do seu mestre Liceu Vieira Dias. A partir de hoje, sempre que olhar para o céu, pensarei na dimensão do homem que parte para outra dimensão. Jamais me esquecerei do exímio artista e intelectual que encontrou na música uma forma de verberar e resistir ao colonialismo português. Mário Rui Silva era um “reviralhista”. Com o seu silêncio barulhento discordava da forma como Angola é dirigida. Requiescat in pace, Mário Rui Silva!