Situação em Angola desafia eficácia da greve geral, diz o Investigador

Avatar By Redacao Mar 20, 2024
Situação em Angola desafia eficácia da greve geral, diz o Investigador

A situação em Angola atingiu um ponto de dificuldade que ultrapassa as palavras. No entanto, Domingos da Cruz expressou dúvidas quanto à eficácia da greve geral anunciada, conforme declarado em uma entrevista concedida ao Jornal Público.

Domingos da Cruz, autor de “Angola Amordaçada” e “Direitos Humanos na Era da Incerteza”, é um investigador angolano da Universidade de Zaragoza. Ex-preso político do caso dos 15+2, agora vive no Canadá, mas mantém um forte interesse na luta cívico-política de Angola. Essa proximidade o leva a questionar o impacto da greve geral programada para esta quarta-feira em seu país. Segundo o investigador, com base na história das greves em Angola, muitas vezes elas são suspensas sem que as demandas dos grevistas sejam atendidas, devido à desconfiança do poder em relação aos sindicatos e à influência exercida sobre seus líderes.

Indagado sobre as possíveis repercussões da greve geral, Domingos da Cruz demonstra cautela. Aponta a falta de transparência em negociações sindicais anteriores e a tendência dos líderes sindicais de não partilharem informações relevantes, resultando na suspensão da greve sem resultados tangíveis.

Também menciona uma crescente influência do governo sobre os líderes sindicais, ao invés de promover um diálogo construtivo para beneficiar os direitos dos trabalhadores e o progresso do país.

Para o investigador, a greve actual é um reflexo não apenas da crise económica em Angola, mas também da desvalorização do kwanza, a moeda nacional, e do aumento do desemprego. Ele levanta a questão de uma possível revolta social iminente.

Aspectos da crise social prolongada que afeta todos os angolanos foram levantados, sugerindo uma resignação diante da privação generalizada e uma perda de capacidade de rebelião devido à ausência de referências em governança, economia e liderança.

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Os Sindicatos e o governo angolano

Os funcionários públicos angolanos deram início hoje à primeira fase da tão aguardada greve geral, convocada pelas três principais centrais sindicais do país. Esta mobilização, que se estenderá por três dias, tem como principal demanda o aumento dos salários dos trabalhadores. As negociações entre os sindicatos e o Governo angolano, que tiveram início no ano passado, não alcançaram consenso até o momento.

Os trabalhadores da função pública em Angola almejam um salário mínimo de pelo menos 250 mil Kwanzas (equivalente a 277,64 Euros), enquanto o governo se propõe a um modesto aumento de 5%, já implementado nos vencimentos de janeiro. Diante dessa disparidade, a classe trabalhadora expressa sua insatisfação e está determinada a combater o que consideram um “salário de escravo” no país.

Francisco Jacinto, secretário-geral da Central Geral de Sindicatos Independentes e Livres de Angola (CGSILA), convocou todos os trabalhadores angolanos a apoiarem a adesão a esta greve. Ele destaca a importância de os trabalhadores mostrarem que são a principal força produtiva do país, enfatizando que a riqueza natural de Angola é transformada por meio do esforço mental e físico das pessoas.

O Governo angolano, por sua vez, considera o valor proposto para o salário mínimo nacional como “irrealista”. A greve geral está programada para o próximo mês de março, e as centrais sindicais afirmam ter o respaldo dos trabalhadores de todas as províncias do país. Além disso, o setor informal também está sendo convidado a aderir à paralisação. Ademar Jinguma, secretário-geral do Sindicato Nacional dos Professores, assegura que a classe docente está pronta para participar da greve, ressaltando que o trabalhador angolano merece um salário digno pelo seu trabalho.

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