A culpa não é minha – Ângelo Feijó

Avatar By Redacao Fev 11, 2024
A culpa não é minha - Ângelo FeijóA culpa não é minha A culpa não é minha - Ângelo Feijó

A leitura do artigo “O Dono da Culpa”, da autoria de Ilídio Cândido, cujas ideias essenciais corroboramos, impele-nos a escrever estas linhas, para reforçá-las.

Parece que não cabem dúvidas de que a maioria das pessoas foge à culpa. O que é a culpa? Ela é, segundo o Dicionário português Verbo, 2ª edição- 2008, a ” causa de um mal ou dano”, é ” a autoria, responsabilidade ou origem de um acto ou omissão que constitui uma infracção jurídica repreensível ou mesmo de índole criminosa voluntária ou não”.

É por esta razão que a maior parte das pessoas tende a fugi-la ou negá-la, o que equivale à negação da responsabilidade pelas consequências negativas das suas acções ou inacções. Assistimos, por exemplo, como os automobilistas se apressam a fugir à culpa em caso de acidentes rodoviários.

Neste exercício de recusa da culpa, as pessoas caem, muitas vezes, na tentação de culpabilizarem, inclusive, o inimputável. Por exemplo, é ridículo dizer que tive acidente rodoviário por culpa do pneu que se desprendeu. A “culpa não é minha”, é quase sempre de outrem ou de outros factores. Até parece que somos infalíveis, fazemos sempre bem as coisas. Muitos defendem-se dizendo: “errei, falhei devido a erros e falhas alheias”. Ninguém gosta que lhe apontem o dedo acusatório.

Se a culpa morrer solteira, torna-se difícil corrigir erros, falhas e/ou insuficiências, logo não há superação e corre-se o risco de repetir, porque se desvirtuam as causas.

Em Angola, muitas vezes, ouvimos dizer: ” Não estamos a procurar culpados, queremos buscar soluções”. Defendemos que é necessário procurar culpados, responsabilizá-los e, mais do que isso, investigar as causas para buscar soluções. Por exemplo, se determinado candidato presidencial ou partido político concorrente às eleições perdê-las, deverá, na análise dos seus resultados negativos, averiguar as causas reais e profundas e não se limitar a imputar culpas a umas ou outras pessoas e nunca a ele próprio.

Na abordagem do tema “culpa”, são chamados os conceitos de responsabilidade colectiva (assumpção pelos membros do colectivo da consciência do dever comum, para dar boa resposta conjunta, ou também é o respeito das inter-relações necessárias para o alcance do objectivo comum) e a responsabilidade individual (é a consciência do cumprimento do dever individual esperado pelos demais). Destes dois conceitos, podemos extrair as noções de culpa colectiva e culpa individual. Por exemplo, se um lote de produção de uma fábrica tiver defeitos, poderá ser por culpa de um ou dois departamentos, de vários funcionários (culpa colectiva) ou de um só (culpa individual).

O desafio de toda a sociedade é educar os cidadãos a assumirem a sua responsabilidade pelos bons actos, assim como pelas acções negativas. Seria bom que a ideia de assumpção da responsabilidade começasse na infância, a partir dos cinco anos, momento em que a criança começa a conhecer “não” e distingue o correcto do errado.

As pessoas ao invés de fugirem a culpa, precisam calcular, prever os efeitos negativos das suas acções, evitando deste modo, passar a vida a ser culpabilizado e a pedir desculpa. Pois, como escreveu Amândio Vaz Velho, “quem é bom em pedir desculpas, não é bom em mais nada”.

De resto, no nosso país precisamos aumentar os níveis de reconhecimento da culpa e de responsabilização, em todas esferas, promovendo o mérito, a destreza e penalizando a negligência, a repetição de erros e falhas, a inércia e o deixa-andar.

*Licenciado em Ciências Sociais e em Gestão de Empresas

JA