Professor catedrático escapa à censura de “Mussundas Amigos” – Jorge Eurico

Avatar By Redacao Fev 10, 2024
Jorge EuricoJorge Eurico

O historiador e romancista Jean-Michel Mabeko Tali deu nota da censura de que quase foram alvo, em Luanda, os seus livros intitulados “O MPLA Perante Si Próprio – Dissidências do Poder”, tomos I e II, como se de uma obra herege se tratasse. A denúncia foi feita por Jean-Michel Mabeko Tali em entrevista concedida recentemente ao (meu) podcast “Senso-Comum”. A malsinação reporta-se ao início da presente década. Vem tarde. Mas vale sempre a pena. A denúncia é grave e por isso convoca a reflexão de todos nós, relativamente à vereda política para qual se pretende encaminhar o País.

O interlocutor do “Senso-Comum” revelou que a censura só não se consumou por se ter socorrido dos “bons ofícios” de um militante sênior do partido no poder: Lopo Ferreira do Nascimento. Foi por uma unha negra. Foi por um triz. Foi por pouco. Mas Jean-Michel Mabeko Tali disse mais: Não era a direcção do MPLA que pretendia censurar a sua obra. Eram os zelosos “mussundas amigos” do partido (MPLA). Era o “pessoal menor” que sequer tinha lido a obra. O caso ficou assim. Ninguém fez nada. Ninguém disse nada. Os extremosos “mussundas amigos” ficaram impunes. Até hoje!

O MPLA tem de começar a promover a cultura da responsabilização dos seus membros quando estes violam os mais elementares direitos civis e políticos de terceiros. Urge acabar com a cultura da desresponsabilização dos militantes que usam e abusam indevidamente do nome do partido no poder para fazerem as suas “cazucutas”.

Hoje, em Angola, a censura não é subtil. É bruta. É politicamente mais agreste. É petulante e desavergonhada. A ignorância, esta, está cada vez mais atrevida. E “anda muito à vontade”. A insolência não tem respeito e muito menos medo da ciência. Que o digam os “mussundas amigos” que andam por aí.

Os “mussundas amigos” sequer sabem que, no tempo da guerra de guerrilha, o MPLA foi acolhido na casa dos pais de Jean-Michel Mabeko Tali, no Congo-Brazzaville. Teve direito à cama, mesa e agasalho. Teve direito à sopa. E, já agora, pão também. Jean Michel Mabeko Tali é, hoje, tão somente um professor catedrático de uma reputada universidade estadunidense e aclamado autor de obras de referência histórica, cultural e política. Mas mesmo assim os “mussundas amigos” tentaram prejudicá-lo. Era a gaiata ignorância no seu melhor.

Quem censura livros, persegue e mata intelectuais. A qualquer momento. Nem que seja à luz do dia. Quem é avesso à cultura, não tarda vai, qualquer dia (mais cedo que tarde), ousar determinar que livros teremos de ler. Quem persegue intelectuais tem, à partida, a guerra perdida. Por quê ? Porque a caneta é (ainda) mais forte que a espada e o intelectual, este, tem sempre a última palavra.

Post-Scriptum – “Mussunda Amigo” é o título de um poema de Agostinho Neto, no qual fala de um amigo, Mussunda, de sua graça, para quem dedica versos para rememorar determinados episódios das suas vivências. Para sua desilusão, Mussunda, percebia patavina dos versos. Por não saber ler. Nem escrever.
Pois!