Quarenta e Oito anos depois, mesmo partido, três presidentes e a mesma Angola! – Gilson Salussi

Avatar By Redacao Nov 11, 2023
JES, JLo e Agostinho NetoJES, JLo e Agostinho NetoJES, JLo e Agostinho Neto

Quando se está em festa, nada mais vale em termos de discussão no ondjango (cá entre nós na comunidade) se não nos contornos da epifania, mais ainda, se a euforia não for colectiva e sim, dos que do bolo comeram e levaram para casa.

A propósito, o título “quarenta e oito anos depois, mesmo partido, três presidentes e a mesma Angola”, nasce de uma reflexão matinal, em torno das conquistas a volta da tão desejada independência que os nossos pais fundadores da nação nos legaram, é o amadurecer de uma visão que ipsum factum, está para lá do que ela hoje significa para o que tendo usurpado o poder, viu-se diante do dilema: sou eu, o grande artífice, sou eu o tal…tal como se diz nos nossos bairros pobres: só pai grande, mordendo o u final, tal qual o pão, esquecendo-se dos outros que prepararam a faca e as travessas.

Rezam as lições da história, ensinadas aos estudantes desde muito cedo, que a independência de Angola resulta de um processo negocial, no qual, quer portugueses, quer movimentos nacionalistas como a FNLA, o MPLA e a UNITA, foram fundamentais para o fechar do mesmo, embora a volta dela, várias foram as incertezas, complexidades e omissões, compreensíveis para um país como este, dada a sua posição estratégica e imensidão das suas riquezas (coisa que enquanto meninos aprendemos em textos de leitura primária), que a cada despertar da aurora, vão além da imaginação do mais refinado desvendador de potencialidades naturais ou outras.

Foi em Mombaça a 3-5 de Janeiro de 1975 que se definiu uma plataforma comum que negociaria o processo transicional para a independência de Angola, tudo porque a jóia da coroa portuguesa era um caso especial, dada a sua complexidade e a existência de mais de um movimento nacionalista. Mombaça foi a base dos futuros acordos de Alvor, assinados a 15 de Janeiro do já referido ano, isto foi possível por conta da revolução dos cravos, que em 1974, abriu as portas para a liberdade do último reduto do colonialismo luso. Alvor definiu aquilo que viria a ser a futura república angolana, não é atoa que até a data foi definida nesta circunstância.

Diante disso, a pergunta que não se cala é: quarenta oito anos depois, o mesmo partido, três presidentes e a mesma Angola, porquê? A resposta todos a podemos encontrar no reflexo do que é a política hoje em Angola, sendo que, não foi possível fazer dela uma real Res Public, daí o status quo…mas, podemos apresentar algumas razões que se nos apresentam como aquelas que traduzem eficazmente o estado da coisa e resistência a não mudança para a construção da Angola sonhada em quatro de Fevereiro, quinze de Março e por aí adiante.

-Ambição desmedida pelo poder, que fez de muitos os grandes arautos da liberdade por isso, os merecedores da mesa para a partilha entre si do banquete (todos os nossos recursos);

-Consagração de um modelo social que normalizasse o anormal, fruto de uma educação débil, com propósito de produzir indivíduos igualmente gananciosos, insensíveis e inobservantes dos valores correspondentes a importância que o outro tem para nós (humanismo);

-Propalação da intolerância desmedida, tendo os outros como os outros, os maus, os algozes, aqueles cujo carácter é contrário a convivência sã, daí a rejeição contínua que estes ainda não possam governar;

-Usurpação do poder ao soberano, elemento fulcral para a instrumentalização das instituições, impedindo que a educação cidadã fosse efectiva, o que anularia a autocracia, permitindo o empreender de uma sociedade onde todos pudessem sentir-se partícipes do seu desenvolvimento;

-Manipulação do único meio que os cidadãos mais comuns têm para avaliar o que se faz e o que não se faz, o que somos e não somos (comunicação social);-A entrega indecorosa dos nossos recursos e riquezas tangíveis ou intangíveis a todos quanto poderem assegurar a continuidade de quem detém o poder, com isso, deixou de haver comunidade internacional preocupada com o x da questão.

Enfim, não precisamos recorrer ao que já muito foi escrito sobre o nosso não desenvolvimento e os elementos a volta dele, só olhando a nossa volta para percebermos que foi de facto um grande triunfo a conquista da independência, mas para a geração de muitos dos nossos que já se foram, e para nós, que valor têm hoje os quarenta e oito anos de independência?

  • Quando a indigência é nossa característica…
  • A fome é nossa maior companheira…
  • A pobreza é condição real e objectiva, nunca relativa no nosso seio…
  • Quando a educação ainda é um privilégio para poucos quanto poderem pagar…
  • Quando a liberdade é um sonho sonhado na cama e idealizado numa mente que tem medo de torna-la efectiva sob pena de ser contra, não ser patriota…
  • Quando discutir ideias não é parte do habitue dos cidadãos…
  • Quando as academias se tornam num centro de reprodutores de um pensar que promove a intolerância, a surdez dos que ouvem e a cegueira dos que vêem o país e dizem não ser o país no qual todos se encontram…
  • Quando o mérito não constrói, nem é apanágio claro para a ascensão social, esta só sendo possível enaltecendo feitos imaginários…

Então para quê sermos independentes se mesmo querendo mudar, quarenta e oito anos depois temos o mesmo partido, três presidentes e a mesma Angola? Já não é colonialista, talvez neocolonialista, para alguns, para outros cleptocratas, para muitos genocidas…! Enfim, não passou pelo imaginário de Holden Roberto, Agostinho Neto e Jonas Savimbi, que a independência fosse reflectida com mais pobreza, mais autoritarismo, mais poder da força, mais exclusão e menos Angola para os angolanos. Que neste dia memorável de celebração da independência nos deixou dependentes de uns poucos, possamos reflectir em torno da nossa essência, dos nossos propósitos enquanto país e dos nossos anseios enquanto cidadãos circunscritos do ponto de vista temporal, das nossas metas e objectivos com a nossa existência, uma vez que ela é efémera, sendo um imperativo fazer obras que engrandeçam-nos e elevam o factor a volta do porquê da nossa existência… “Nosce te ipsum – existir é ser conhecido ou dar-se a conhecer-conheça-te e se dê a conhecer”.

Por: Gilson Salussi

Gilson Salussi