O triste fim de uma história de amor – José Eduardo Agualusa

Avatar By Redacao Ago 8, 2023


A África deu aos russos o avô do seu melhor poeta. Vladimir Putin retribui com esmola de cereais, guerras, pilhagem e mercenários
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“O mais famoso poeta russo, Aleksandr Sergeevich Pushkin, era neto de Abram Petrovich Gannibal, nascido, nos últimos anos do século XVII, em território que hoje pertence ao Sudão. O pai de Abram, um príncipe etíope, foi morto numa batalha contra os turcos otomanos, e o seu filho sequestrado e levado como escravo para Istambul. O embaixador russo naquela cidade resgatou o pequeno Abram, enviando-o para Moscou, para trabalhar no palácio do czar Pedro I, que ficou conhecido como Pedro, o Grande. O czar, impressionado com a inteligência do rapaz, ofereceu-lhe uma bolsa para estudar engenharia militar em Paris. Regressado à Rússia, o jovem etíope casou com uma rica aristocrata, Regina Sioberg, com a qual teve dez filhos.
A partir dos anos 1950, a antiga União Soviética começou a acolher e a formar largos milhares de estudantes africanos, muitos dos quais tiveram filhos enquanto ali viviam. Algumas dessas crianças retornaram com as mães, ou os pais, aos seus países de origem. Outras permaneceram na terra natal.
Calcula-se que existam hoje pelo menos 50 mil russos de origem africana. Haverá, provavelmente, um número maior de africanos de origem russa. Em Angola, o caso mais conhecido é o de Isabel dos Santos, nascida em Bacu, no Azerbaijão, filha do falecido presidente José Eduardo dos Santos e de uma geóloga russa, Tatiana Kukanova. Isabel, que durante o reinado do pai acumulou uma imensa fortuna, vive atualmente em Dubai, foragida da Justiça angolana.
Na Cimeira Rússia-África, que teve lugar em São Petersburgo no mês passado, Vladimir Putin esforçou-se por explorar emocionalmente as ligações históricas entre Rússia e África. A intenção era mostrar ao mundo que a Rússia não está isolada na cena internacional. Não correu bem. Apenas 17 presidentes africanos se deslocaram à pátria de Pushkin. Além disso, a declaração final da cimeira preferiu ignorar a guerra na Ucrânia. Durante o evento, contudo, Putin afirmou estar estudando com interesse e respeito uma proposta de paz desenhada pelo grupo africano. Esta, sim, é uma proposta interessante, ao colocar a África no papel de pacificador internacional.
O recente golpe militar no Níger, que derrubou o presidente eleito Mohamed Bazoum, deve ter alegrado Putin. Um dos líderes do golpe, o general Salifou Mody, visitou esta semana o Mali, país onde estão estacionados 1.500 mercenários do grupo Wagner, que explora diversas minas de ouro. O grupo Wagner também explora ouro na República Centro-Africana e na República Democrática do Congo. Já o Níger é um dos maiores produtores mundiais de urânio.
Os manifestantes que protestaram contra o neocolonialismo predador dos ocidentais diante da embaixada francesa, em Niamei, a capital do Níger, logo após o derrube do presidente Bazoum, deviam preparar-se para protestar também contra a Rússia.
A África deu aos russos o avô do seu melhor poeta. Putin retribui com a esmola de algumas toneladas de cereais; guerras, instabilidade política, pilhagem e mercenários. O mesmo que a França e outras antigas potências coloniais sempre fizeram.
Não é o melhor final para uma história de amor que começou tão bem.”O Globo