Começou o fim da cerveja em Angola: Nocal e Eka suspendem produção por falta de divisas

Avatar By Redacao Jul 8, 2023

A fábrica da Nocal foi a primeira a suspender a produção, enquanto a Eka do Dondo vai parar as máquinas na última semana de Julho. Tanto numa fábrica como na outra, a decisão foi tomada depois de reuniões com os trabalhadores responsáveis pelo sector de produção.
O Grupo Castel, que detém as fábricas das marcas de cerveja Eka e Nocal, decidiu suspender a produção por tempo indetermino, devido às dificuldades para arranjar divisas, o que dificulta a importação da maior parte das matérias-primas para a produção das bebidas, apurou o Expansão junto de fontes do grupo.
Este é mais um dos efeitos da queda das receitas estatais com a exportação de petróleo nos últimos meses, que cortou divisas ao País e, por sua vez, fez afundar o Kwanza face ao Dólar. Além dos clientes particulares dos bancos, também as empresas estão com dificuldades para aceder a cambiais.
A marca Nocal, com a fábrica localizada no município do Cazenga, foi a primeira “vítima” da falta de matérias-primas no grupo de origem francesa, tendo parado as máquinas na última semana do mês de Junho.
Ao que o Expansão apurou, caso a situação cambial se mantenha nos níveis actuais, no final deste mês a fábrica da cerveja Eka, no município do Dondo, na província do Cuanza Norte, vai suspender igualmente a produção.
Tanto numa fábrica como na outra, a decisão foi tomada através de uma reunião técnica com os trabalhadores responsáveis pelo sector de produção da fábrica. A reunião dirigida foi pelos directores das respectivas unidades fabris.
De acordo com uma fonte que participou numa destas reuniões, os directores das fábricas em causa receberam um correio electrónico a partir da estrutura central do grupo, na fábrica da Cuca de Luanda, justificando a decisão com a falta de divisas para importar matéria-prima e manter a produção das duas fábricas.
A unidade fabril da marca Eka, fundada em 1972, aguarda apenas que se termine a produção em curso para encerrar a actividade temporariamente. O Expansão sabe que nesta altura estão em produção quatro TOD (acrónimo técnico para tanques de fermentação). Ao todo são pouco mais de 28 hectolitros, equivalente a 2.800 litros.
“Para minimizar os custos a opção é encerrar determinadas fábricas em que os custos de produção são muito altos com os equipamentos, com a manutenção, com a matéria-prima e com o pessoal. Sendo que a retoma da produção vai depender da evolução cambial nos próximos meses”, explicou uma fonte do grupo.
O Expansão tentou obter por diversas vezes esclarecimentos por parte do grupo de origem francesa, mas depois de falar telefonicamente com vários membros da empresa não conseguiu chegar à fala com o departamento de comunicação institucional. Numa das abordagens, uma das recepcionistas, Ana Oliveira, disse ter sido orientada a dizer que a informação não correspondia à verdade. Entretanto, passou a chamada a um outro elemento que se apresentou como Otomano da Costa, que se escusou a revelar o seu cargo e que negou-se a confirmar se a informação era correcta. Ambos se negaram a indicar um email ou um contacto do responsável pela comunicação do grupo após várias insistências do jornal.
Castel tem um total de oito fábricas em Angola
O grupo francês fundado em 1949 por Pierre Castel, que é um gigante na indústria de bebidas, importa milhares de toneladas de matéria-prima para alimentar as oito fábricas de cerveja instaladas em sete províncias do País, nomeadamente Bengo, Benguela, Cabinda, Cuanza Norte, Huambo, Huíla e Luanda.
Uma vez que a falta de produção de matéria-prima nacional tem sido um dos handicaps no sector industrial do País, o grupo vê-se forçado a suspender estas duas marcas de cervejas nacionais (Nocal e Eka), ficando apenas com a produção das marcas Cuca, N”Gola, Booster, Dopel e 33″Export, além de refrigerantes e bebidas energéticas.
“Grande parte do pessoal da fábrica tem contrato de três meses renováveis automaticamente com acordo mútuo. Nesta altura, muito estão a terminar o contrato”, explica uma fonte.
O grupo é um player importante na indústria das bebidas em Angola, que é das mais consolidadas no sector produtivo do País. Além das oito fábricas de bebidas, o grupo detém ainda a unidade fabril de produção de garrafas de vidro, a Vidrul – Vidreira de Angola, a maior do sector no País, a maior sector do País.