Ministro Laborinho: “Quando o governo não planifica, o povo ordena o território” – Luís de Castro

Avatar By Redacao Abr 25, 2023


Depois de ter se notabilizado como promotor de “rebuçados e chocolates” na corporação policial, o ministro do Interior, Eugénio Laborinho (EL), volta a fazer manchete na mídia convencional e virtual, pelas piores razões. Em busca de protagonismo para agradar o “Chefe”, EL apareceu em contramão, na conferência de imprensa sobre os danos provocados pelas chuvas que caíram em Luanda, na semana finda, deixando um rasto de seis mortes, cinco mil casas inundadas e 1500 pessoas desalojadas.
A conferência que seria para avaliar os dados causados pelas fortes chuvas e medidas para acudir os afectados, serviu para o ministro do Interior exibir o seu arsenal de comunicação agressiva, vitimizando o Executivo, ou melhor, atribuiu toda responsabilidade dos danos provocados às vítimas do sinistro.
O que passa pela cabeça de EL é que as chuvas intensas, que resultou na inundação de residências, deixou ruas intransitáveis, instituições públicas e privadas submersas, entre outras consequências, é de inteira e exclusiva responsabilidade da população que construiu em cima de linhas de água e em zonas de risco.
Como se não bastasse, o ministro do Interior proibiu os sinistrados, e a sociedade de modo geral, de lamentar a dor de quem perdeu tudo ou quase tudo, incluindo o bem maior, vida.
Eugénio Laborinho revelou a mentalidade tradicional dos dirigentes do partido no poder, que escudam-se no “êxodo populacional com destino à Luanda” como a causa de todos os males. O que não dizem é que faltam políticas públicas exequíveis para “descongestionar” a capital do país.
Não se aceita esse discurso barato e populista, de um governante da dimensão de EL. Um ministro do interior tem de ter polidez no discurso. Dito de maneira simples, deve deixar de adoptar o estilo de comunicação agressiva e ter aulas intensivas sobre comunicação assertiva.
O problema das consequências das chuvas não se limita as construções em linhas de águas. É muito mais do que isso, Senhor Ministro! Só dessa forma é que se compreende as razões que provocam inundação da zona urbana do Talatona, Benfica, e/ou alguns condomínios luxuosos, quando São Pedro abre as torneiras sem tréguas.
Analisando os factos, conclui-se facilmente que o problema estrutural e demográfico que Luanda apresenta decorre da incapacidade de gestão territorial que os governantes da capital do país têm demonstrado ao longo dos anos. Aliás, diz um velho adágio do urbanismo, “quando o governo não planifica o território, o povo ordena”. Daí que desordenadamente a população tem ordenado a província de Luanda, muitas vezes com o beneplácito de autoridades administrativas e de defesa e segurança.
No entanto, já foram apontado caminhos para mitigar o impacto das chuvas, em Luanda e não só. Há quase duas décadas que ouvimos de especialistas que a solução passa pela educação da população, micro e macrodrenagem, recolha de lixo, assim como a implementação de sistemas de alerta de mau tempo para evitar a perda de vidas humanas.
Senhor Ministro do Interior (e pares), é hora de pôr fim ao diálogo de surdos e mudos e dar voz e ouvidos aos especialistas nacionais. É hora de parar de engordar o “ego da mixa” e dar oportunidade à Ordem de Arquitectos de Angola e outros especialistas para mitigar o impacto das chuvas no país, em particular, na província de Luanda.
Segundo um dos especialistas, que preferiu manter o anonimato, “a solução já é conhecida há muitos anos, que passaria por criar mecanismos de escoar as águas pluviais para uma linha de água ou directamente para o mar”.
O que não foi dito pelos representantes do governo, na conferência de imprensa, se houvesse vontade política de quem dirige de fazer as coisas corretactamente, iríamos preservar vidas humanas e bens materiais.
Portanto, a elaboração e implementação de projectos estruturantes para Luanda, em particular, deve contar com o envolvimento de angolanos, devido o conhecimento da realidade local, com realce para entre arquitectos, antropológico, sociológico e economistas, especialistas com domínio das bacias hidrográficas, ou seja deve ser um estudo transversal.