“A UNITA é um partido que tolera diferenças. Conheço muito bem a UNITA” – Nuno Dala

Avatar By Redacao Abr 23, 2023


Nuno Álvaro Dala, académico e deputado à Assembleia Nacional pelo Grupo Parlamentar da UNITA, que num passado recente esteve envolvido num dos processos judiciais mais mediatizados da história democrática angolana, compara, em entrevista ao NJ, a liderança de João Lourenço à de José Eduardo dos Santos. Entre outros temas, assume-se ideologicamente fazer parte da UNITA e garante ser um partido que respeita o pluralismo de ideias.
Como tem sido esse processo de metamorfose de activista para político?
A sua questão encerra duas linhas de análise. A primeira sobre o activismo, que é um campo de actuação em que o sujeito procura a transformação da realidade, mas não visando o alcance do poder. O outro eixo de análise tem a ver com a política, que é um campo de actuação que envolve a vida pública, mas aqui a diferença é que pretende o alcance do poder, que, para o nosso contexto, quer em termos de realidade formal, quanto material, se faz através do processo eleitoral. Eu, enquanto alguém que ficou 19 anos a fazer activismo, quero dizer que esta actividade encerra vantagens e desvantagens, sobretudo na nossa realidade, que, quando alguém assume uma postura que efectivamente não coincide com a do poder instituído, acaba por ser conotado e, mais do que isso, torna-se alvo de perseguição. Portanto, já não sou activista porque há incompatibilidade estrutural entre ser activista e ser deputado e isto significa que, em termos práticos, migrei do activismo para a política.
Como está a ser a coabitação dentro do Grupo Parlamentar da UNITA, tendo em conta as diferenças ideológicas?
Em 2019, quando decido que tinha chegado a altura de servir o País numa outra posição, em sede da qual teria maior poder de influência e, naturalmente, acesso a alguns recursos para poder realizar os meus objectivos, fi-lo, certamente, pensando numa estrutura, através da qual poderia participar na vida pública em sede da política. Esta estrutura foi o PRA-JA, em cuja génese participei, portanto, como se diz, sou membro fundador. No que diz respeito ao Grupo Parlamentar da UNITA, é heterogéneo, composto por deputados que são militantes da UNITA, membros do projecto político PRA-JA, como é o meu caso, membros oriundos do Bloco Democrático, a par, é claro, de uma quarta categoria de origem da sociedade civil, portanto, que não tem placa partidária. O Grupo Parlamentar da UNITA está saudável, recomenda-se e temos tido uma convivência bastante salutar. Há muita aproximação ideológica entre o pessoal do PRA-JA e o da UNITA, porque o líder do projecto político PRA-JA, como sabem, é oriundo da UNITA e boa parte dos membros da sua estrutura directiva é proveniente da UNITA. Portanto, por mais que o PRA-JA tenha identidade própria, não deixa de haver semelhança entre o PRA-JA e a UNITA, que é a estrutura que suporta a FPU [Frente Patriótica Unida]. Portanto, é um grupo parlamentar heterogéneo, mas é extremamente unido e dificilmente se vêem diferenças entre deputados da UNITA, do Bloco Democrático, do projecto político PRA-JA ou aqueles que são oriundos da sociedade civil.
Enquanto deputado, as suas abordagens e sentido de voto são de acordo com a sua consciência ou resultam de uma orientação da UNITA?
É evidente que pertencer a um grupo parlamentar acarreta a responsabilidade de obedecer à disciplina partidária, porque a estrutura que suporta este grupo parlamentar é a UNITA. Até agora, estou a dizer de boca cheia, toda a orientação política vinda da direcção da UNITA em relação ao sentido de voto na Assembleia Nacional coincide com a minha visão pessoal, enquanto cidadão e enquanto deputado, e nesta questão não tem havido problemas.
Mas problemas podem ocorrer. Como sabe, no início do mandato, houve um incidente entre o empresário Francisco Viana e deputados estritamente ligados à UNITA.
A UNITA é um partido que tolera diferenças. Conheço muito bem a UNITA, aliás, tenho dito, meio a brincar, meio a sério, que sou mais da UNITA do que muita gente que tem cartão na UNITA. Isto significa que, pelo meu conhecimento, que resulta de muitos estudos sobre a UNITA, eu acabei por captar o espírito que subjaze a esta formação político-partidária e isto só se consegue estudando a génese da organização, a antropologia política, sociologia política e a própria linguística que caracteriza a organização. Isto significa que, havendo uma diferença entre o meu posicionamento e o da UNITA, não acredito que haja uma guerra, vamos assim dizer, de posicionamento, que leve à fractura na relação que existe entre a minha pessoa e a UNITA.
Muitos quadros com os quais Abel Chivukuvuku saiu da UNITA, em 2012, concebendo a CASA-CE, e agora lutam para legalizar o PRA-JA, estão a regressar à UNITA. Do teu lado, também tem sido assediado para ingressar às fileiras dos “maninhos”?
Os convites para aderir à UNITA têm sido feitos de uma forma mais ou menos sistemática. Nunca recebi um convite oficial, por escrito e assinado por um responsável da UNITA. São convites feitos por militantes com alguma influência no partido, mas a minha resposta é que, quando decidi galgar para a política, tinha duas opções: a primeira era ir para a UNITA, o partido que melhor conheço, em segundo, era o de criar um projecto novo. Como na altura não tinha condições para criar um projecto novo, juntei-me a um grupo que estava em processo de criação, que é o PRA-JA, liderado por Abel Chivukuvuku, que é o grupo que veio da cisão ocorrida na CASA-CE.
Visando a busca não só da unidade mas também de uma ampla máquina política, a UNITA, o BD e o projecto político PRA-JA conceberam algo que podemos denominar por “coligação política informal”, sendo que todas as outras forças foram atreladas à UNITA. Para as próximas eleições, caso não seja institucionalizada a FPU e a UNITA venha a concorrer de forma isolada, qual deverá ser a sua posição?
A UNITA, como qualquer outro partido, tem interesses em cooptar pessoas para entrar nas suas fileiras. É normal e legítimo querer trabalhar com aqueles que entendemos serem compatíveis com a nossa visão de vida e de trabalho. No entanto, num cenário como este, a minha resposta seria sempre a mesma: espiritualmente sou da UNITA. Significa que eu me revejo na causa da UNITA, mas, por razões de outra ordem, entendo que a minha participação na política é muito mais ampla, muito mais instrumental, se eu actuar na condição de membro ou militante de uma outra força, de preferência uma força nova, neste caso o PRA-JA. Eu, mais do que apenas esse imperativo de actuar em sede de uma força nova, também entendo que a lealdade à causa, ao projecto, é fundamental e sei que a UNITA nunca me vai maltratar por eu manter a postura de não ingressar neste partido, porque se fosse a questão de ingressar teria ingressado antes, independentemente de fazer ou não parte da lista de candidatos a deputados, eu próprio participei no processo de construção técnica da FPU, porque a FPU é um arranjo ad-hoc da UNITA para receber figuras que não são da UNITA, mas convergem na visão de País e na forma como deve ser gerido. Se houver descontinuidade deste arranjo, vou-me manter na condição do projecto político PRA-JA, pois não será projecto para sempre. Se o projecto desaparecer, aí serão as circunstâncias a me aconselhar para que, em nome do País, eu faça a melhor opção possível ou disponível, embora não aquela que eu desejasse.
Ainda acredita na legalização do PRA-JA?
Juridicamente é possível a legalização do projecto [PRA-JA]. No entanto, acredito que a solução para a legalização não é jurídica, ela é mais uma solução que vai decorrer de arranjo político.
José Eduardo dos Santos, então na qualidade de Presidente da República, era acusado de, entre outros elementos, restringir a imprensa e partidarizar o Estado. O Presidente João Lourenço também tem sido alvo das mesmas acusações. Como qualifica um e outro?
Nós temos, por um lado, José Eduardo dos Santos, que era um Presidente que conseguia ser maestro de manutenção do projecto de poder do MPLA, mas fazia-o com aquilo que nós chamamos de “luva de veludo”, portanto tinha um braço de ferro, mas com “luvas de veludo”. Era um indivíduo que tinha uma forma discreta de gerir as situações. Já vemos diferente em João Lourenço, que é uma figura que também é maestro em manter o projecto de poder do MPLA, mas a diferença está no facto de que, enquanto JES usava “luvas de veludo”, JLo não usa sequer luvas, é muito mais bruto na sua forma de actuação, quer no discurso, quer na actuação, a par de que, temos uma figura presidencial que, lamentavelmente, deixa que os cargos de Chefe de Estado e de Presidente da República sejam utilizados como instrumentos para fazer lutas individuais, para perseguir determinadas pessoas do mesmo grupo, com as quais não concorda e, naturalmente, mais do que isso, com as pessoas de fora que ele considera, efectivamente, incómodas. Essas são algumas diferenças entre os dois, onde muitos consideram JES como um ditador sábio, enquanto [JLo] é tido como um ditador que deixa transparecer ignorância, falta de tacto, a par, é claro, de uma disfarçável vontade de destruir o grupo leal ao falecido Presidente José Eduardo dos Santos.
Fonte: Novo Jornal