Os pobres são só eleitores… não são cidadãos – Alexandra Simeão

Avatar By Redacao Abr 19, 2023
A Amnistia Internacional (AI) produziu um relatório sobre a Fome em Angola e mostra que, em 2022, “1,58 milhões de pessoas foram dramaticamente afectadas pela fome no Sul do País e que, destas, 400 mil eram crianças diagnosticadas com desnutrição grave”, devido à fome severa que sofreram e continuam a sofrer, de acordo com dados elaborados pelo UNICEF, sendo que as províncias de maior risco são: Cunene, HuÍla e Namibe. A AI denuncia a “falta de intervenção necessária por parte do Governo”, tendo muitos angolanos sido assistidos pelo Governo da Namíbia e Cruz Vermelha, depois de terem caminhado vários quilómetros a pé, sem comida nem água (Cf. NOVO JORNAL – T. Fukiady – 31.03.2023 /OBSERVADOR 28.03.2023).
Angola é um País que conta com um alargado elenco governativo, composto por 23 ministérios, 48 secretárias de Estado, 18 Governos Provinciais, 164 administrações municipais, 518 administrações comunais e 44 distritos urbanos. À luz da nova proposta de Lei da Divisão Política Administrativa, Angola passará a ter 20 províncias e 581 municípios, medida construída “com o argumento da proximidade entre cidadão e o governante e, de acordo com a informação pública, essa nova divisão será implementada a partir de 2024” (Cf. Jornal de Angola 30.11.2022).
O argumento para o aumento de províncias e de municípios é hilariante e, obviamente, tem na outra face da moeda outra intenção que não está, minimamente, preocupada em salvaguardar a qualidade de vida dos cidadãos. Pois, se fosse esse o caso, não teríamos de esperar até 2024 para ver os resultados destes imprescindíveis serviços de proximidade e veríamos a implementação dos mesmos nas administrações já existentes e que são neste momento de proximidade, servindo os bons exemplos para replicar nos restantes novos municípios. Mas, o problema é que, a bem dizer, as administrações não passam de nados-mortos, sem qualquer outra utilidade que vá para além da emissão de atestados de pobreza, de residência, registo militar e anexos partidários úteis em tempo eleitoral. O resto é mesmo resto, e a sua intervenção quotidiana na vida do cidadão é insipiente e, em muitos casos, inexistente. Não há auscultação, não há concertação, nem nenhum plano de proximidade mesmo quando a administração fica na nossa rua.
É absolutamente confrangedora a ausência de “intervenção necessária por parte do Governo angolano” num assunto que já deu a volta ao mundo enquanto notícia, mas aqui não tira o sono de ninguém. A fome que não é relativa não se resolve com campanhas de marketing. A fome é um atentado aos Direitos Humanos, uma das mais hediondas humilhações que um povo pode sofrer pela perda da sua dignidade, pela perda da sua vida. Uma governação que não privilegia a defesa de uma AGENDA SOCIAL digna e consciente corre o sério risco de se tornar mal vista e malquista por parte dos munícipes eleitores e contribuintes. E, quando a onda de indignação for nacional, aparecerão vários arautos de serviço, de punho em riste, que vão repetir até à exaustão, que a culpa é da “ingerência de grupos malfeitores” que pretendem “desvirtuar a ordem instalada” e “materializar actos preparatórios” de tudo e mais alguma coisa, garantindo “estadas” prolongadas nas “magníficas” celas nacionais ou definitivas nos cemitérios.
A pobreza entre nós não é uma canção dos “inimigos da paz, lúmpenes e bandidos”. A pobreza em Angola é real, antiga, brutal, solitária, conhecida, mas nunca foi uma prioridade. As acções públicas empreendidas são, na sua maioria, uma esmola temporária. Os programas de “alívio à pobreza” surtiram um efeito multiplicador reverso. Os angolanos estão cada vez mais pobres e mais abandonados. Os efeitos da pobreza ao longo da História da Humanidade foram responsáveis por alterações significativas na política, na geografia, na economia. Por causa da pobreza, foram construídos novos ideais para fazer nascer um novo modelo de governação, e o totalitarismo foi abolido em muitos países com prejuízos sérios para os descendentes divinos. A democracia é filha da luta contra a pobreza e desigualdade social.
Infelizmente, entre nós impera o egoísmo, a ausência de amor pelo próximo, a ganância, o desprezo pelas instituições que podem fazer a diferença na vida de todos como a ESCOLA. Entre nós, o dirigente é tão mais respeitado quão mais rico for, por menos eficiente que seja e por mais obscura que seja a origem da sua abundância económica. É aqui que nasce a indiferença e a prepotência. O ângulo por onde olham para o pobre está deslocado e só vê bem-estar pessoal. E como não me canso de avisar, a paciência dos povos é, em todo o mundo elástica, mas jamais foi eterna. Quando as pessoas perdem o sonho, a dignidade, a casa, a paz no prato, os filhos, o futuro e o medo, decidem reclamar, por mais duras que sejam as consequências, porque já não têm mais nada a perder.
Uma governação que permite que a pobreza se agigante desta forma tão cruel e que, ao mesmo tempo, gasta milhões em elefantes brancos, negócios suspeitos, que se endivida até à medula para assuntos que não são prioritários, comprometendo o futuro das novas gerações, terá imensa dificuldade em dialogar com os que sofrem e correrá sempre o risco de ser rejeitada. O caminho é o da consciência de que ninguém precisa de mais direitos do que o outro. O caminho é o da salvaguarda da vida e da dignidade de todos. O caminho é o da humildade, da sabedoria, da honestidade, da ética e da fraternidade. Importa lembrar que a “cada um de nós compete uma tarefa específica na difusão do BEM”, como tão genialmente referiu Torres Pastorino.
Uma comunidade ouvida e envolvida participa de forma positiva na construção do bem comum. O povo que menos tem foi aquele que, com engenho, desenvolveu sempre as soluções mais eficazes para sobreviver. Há, em todo o País, uma experiência rica e vasta de participação cidadã que não pode ser menosprezada em função de planos megalómanos que apenas beneficiam uma reduzida elite. Os Direitos nasceram para serem universais e devem ser outorgados à nascença, para que TODOS OS ANGOLANOS tenham as condições necessárias à partida, pois, de outra forma, não se constrói nem igualdade, nem equidade.
Fonte: Novo Jornal