“Espero que a minha história inspire outras mulheres na busca de soluções inovadoras” – Fátima Almeida

Avatar By Francisco Muanza Abr 17, 2023
“Espero que a minha história inspire outras mulheres na busca de soluções inovadoras” – Fátima Almeida
A empresária angolana Fátima Almeida afirmou, recentemente, em entrevista à ANGOP, que a sociedade civil pode desempenhar papel importante na promoção da igualdade de género em Angola.
Segundo a especialista em Sistema Digital de Pagamentos, isto pode ser feito com a sensibilização e advocacia para mudanças culturais, a fim de se eliminarem barreiras no acesso das mulheres à tecnologia.
Conforme a fonte, o sector privado pode contribuir para a promoção da igualdade de género, por meio da implementação de políticas internas que promovam, essencialmente, a diversidade e a inclusão social.
Do seu ponto de vista, pode, também, propor programas de capacitação para mulheres em cargos de liderança, num trabalho conjunto com organizações da sociedade civil que trabalham para promover a igualdade de género e o empoderamento feminino.
Nesta entrevista, a empresária destaca o facto de as autoridades angolanas tomarem medidas significativas para promover a igualdade de género e o empoderamento das mulheres, mas diz que muito ainda há por se fazer.
“O Executivo angolano tem tomado medidas para promover a igualdade de género, criando políticas e programas que visam empoderar as mulheres e garantir os seus direitos”, comentou a especialista, que espera poder influenciar mais mulheres e homens na busca de soluções inovadoras.
“Espero que a minha história inspire outras mulheres e homens na identificação de problemas e na busca de soluções inovadoras”, rematou.
Eis a entrevista na íntegra:
ANGOP – O mundo celebrou, em Março último, o mês dedicado à mulher, que continua a lutar pela igualdade de género, apesar de inúmeras barreiras na conquista do seu espaço. Para o começo da conversa, qual é a sua visão sobre essa questão em Angola?
Fátima Almeida (FA) – É positivo notar que Angola tem tomado medidas significativas para promover a igualdade de género e empoderar as mulheres. Um exemplo é o facto de o Presidente da República, João Lourenço, promover mulheres em posições de liderança no seu Executivo. As mulheres em posições de liderança em Angola, como a Vice-Presidente da República, Esperança da Costa, e a ministra de Estado para a Área Social, Dalva Ringote, têm desempenhado papel fundamental na promoção do empoderamento feminino e na criação de oportunidades para as mulheres no país. Para além dessas, a ministra das Finanças, Vera Daves, e a presidente da Assembleia Nacional, Carolina Cerqueira, são outras mulheres notáveis que ocupam posições de destaque na arena política angolana. Essas mulheres desempenham papéis importantes, para garantir que as demais tenham acesso à educação, saúde, oportunidades económicas, bem como se envolvem na luta contra a violência sobre o género e discriminação.
Por outro lado, o Governo angolano tem tomado outras medidas para promover a igualdade de género, criando políticas e programas que visam empoderar as mulheres e garantir os seus direitos. Por exemplo, o país tem implementado programas de microcrédito para mulheres empreendedoras, assim como campanhas de consciencialização sobre a violência no género e a importância da igualdade. Embora ainda haja muito a ser feito, no sentido de garantir a igualdade de género em Angola, é encorajador ver o Executivo tomar medidas positivas nessa direcção.
ANGOP – Participou, há dias, de um encontro mundial, cujo foco foi empoderamento e igualdade de género. Pela experiência adquirida, acredita que as nossas políticas são as mais ajustadas?
FA – Angola aprovou, em 2013, a Política Nacional para a Promoção da Igualdade de Género, que visa promover a igualdade de género em todos os aspectos da vida social, política e económica, incluindo a igualdade no acesso e oportunidades na área de tecnologia. Para além disso, esse plano está alinhado com os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, em particular o ODS 5 – Igualdade de Género, e o ODS 9 – Indústria, Inovação e Infra-Estrutura. A implementação eficaz dessa política ajudaria a alcançar o ODS 5 e a garantir a igualdade de género no sector da tecnologia, bem como o ODS 9, promovendo a inovação e infra-estrutura tecnológica para o desenvolvimento sustentável.
Para melhorar a aplicabilidade desta política, é importante que haja um esforço conjunto do Executivo, das empresas e da sociedade civil, de modo a garantir que as medidas estabelecidas sejam implementadas de forma eficaz. Isso inclui fornecer recursos e capacitação para os envolvidos, bem como garantir que haja monitoramento e avaliação regulares para medir o progresso e ajustar a política, se necessário.
ANGOP – Como devem ou deveriam ser aplicadas estas políticas?
FA – Para colaborar com as Nações Unidas, é importante que exista uma parceria e coordenação entre todas as partes interessadas. Uma maneira de fazer isso é estabelecer um diálogo regular para compartilhar informações e discutir iniciativas e políticas relacionadas com a igualdade de género e tecnologia. O Governo pode liderar esforços para promover a igualdade de género, incluindo o desenvolvimento e a implementação de políticas e programas para aumentar o acesso das mulheres à tecnologia e empregos no sector tecnológico. Também pode oferecer incentivos fiscais e financeiros a empresas que promovem a igualdade de género e diversidade nas suas operações.
O sector privado pode contribuir para a promoção da igualdade de género, por meio da implementação de políticas internas que promovam a diversidade e a inclusão, para além de programas de capacitação para mulheres em cargos de liderança. As empresas também podem envolver-se em parcerias com organizações da sociedade civil que trabalham para promover a igualdade de género e o empoderamento das mulheres. A sociedade civil pode desempenhar papel importante na promoção da igualdade de género, através da sensibilização e advocacia para mudanças culturais que possam eliminar as barreiras para o acesso das mulheres à tecnologia e ao sector tecnológico. Em resumo, a colaboração entre o Governo, o sector privado e a sociedade civil é fundamental para garantir a aplicação efectiva das políticas de igualdade de género em Angola.
A adopção dos ODS da ONU pode, inclusive, ser uma referência útil para o desenvolvimento de políticas e iniciativas relacionadas com a tecnologia e igualdade de género.
ANGOP – Falando um pouco sobre a sua história e trajectória, como surge a vontade de empreender, sobretudo, no sector digital?
FA – A vontade de empreender no mundo tecnológico surgiu de uma necessidade de resolver um problema que identifiquei: os preços elevados de certos bens, como roupas novas, em Angola. Acreditei que era possível trazer uma maior igualdade de acesso a esses produtos com preços mais baixos e qualidade comparável. A solução viável que encontrei foi conectar o mercado angolano com o mundo, através da tecnologia, criando uma plataforma de comércio electrónico.
Em 2016, fundei a BayQi, com três amigos, iniciando a empresa dentro do meu apartamento, no Kinaxixi. Espero que a minha história inspire outras mulheres e homens na identificação de problemas e na busca de soluções inovadoras através da tecnologia. O mundo da tecnologia está em constante evolução e oferece inúmeras possibilidades para inovar e criar soluções que possam melhorar a vida das pessoas. Empreender no sector digital pode ser uma maneira de realizar sonhos e criar um impacto positivo na sociedade, para além de oferecer uma oportunidade única de desenvolver habilidades em áreas como programação, design, marketing digital, entre outras.
No entanto, empreender no mundo tecnológico pode ser desafiador, mas é uma das formas mais gratificantes de criar impacto e mudança em larga escala. O importante é ter paixão, determinação e estar disposto a assumir riscos calculados para alcançar os seus objectivos. Não tenham medo de buscar ajuda e orientação em organizações que apoiam o empreendedorismo, bem como em programas de aceleração de startups.
ANGOP- Em termos concretos, como funciona a sua plataforma?
FA – Como mencionei na pergunta anterior, a BayQi foi fundada por mim, em 2016, começou como uma plataforma de comércio electrónico, com o objectivo de conectar marcas nacionais e internacionais com o consumidor angolano. Hoje, expandiu-se para oferecer serviços financeiros e sistemas de pagamento digital. Em 2022, a empresa recebeu a autorização do Banco Nacional de Angola (BNA) para operar como instituição financeira não-bancária. Agora, a BayQi oferece uma ampla gama de serviços, incluindo recargas de telefone, pagamentos de contas de serviços públicos e pagamentos com QR Code em mercearias, lojas e restaurantes, melhorando a experiência do cliente com conveniência e segurança.
ANGOP – Qual é a cota de mulheres na sua empresa?
FA – A BayQi tem um forte compromisso com a igualdade de género e a diversidade e inclusão em todos os aspectos do negócio. Acreditamos que um ambiente de trabalho inclusivo e diversificado é fundamental para promover a inovação, a criatividade e a excelência nos serviços prestados. Actualmente, contamos com 15 mulheres na nossa equipa e temos como meta empregar mais de 25 mulheres até ao final do ano, para além de oferecer oportunidades de estágio profissional a pelo menos 30 mulheres.
Promovemos uma cultura de respeito e igualdade, livre de qualquer forma de discriminação ou assédio, porque estamos comprometidos em fazer a diferença na sociedade angolana, em geral, promovendo uma cultura de igualdade, diversidade e inclusão.
ANGOP – Sendo uma das poucas mulheres a investir no sector digital no país, que responsabilidades pesam sobre si?
FA – Como empreendedora no sector digital em Angola, sinto uma grande responsabilidade em representar o país e inspirar jovens da comunidade PALOP a perseguir os seus sonhos. Para além disso, como mulher africana num sector tecnológico predominantemente masculino, é importante lutar para aumentar a representatividade feminina e elevar a participação e inteligência da mulher africana em tecnologia. É por isso que, na BayQi, temos políticas que visam capacitar e criar oportunidades para mulheres na empresa, com vista a aumentar o número de mulheres em cargos de liderança e reduzir a disparidade de género no sector tecnológico em Angola. Também oferecemos programas de estágio para jovens, tanto homens como mulheres, para capacitá-los e incentivá-los a seguir carreiras em tecnologia e empreendedorismo.
ANGOP – Qual é a estratégia para difundir e dar destaque à marca a nível internacional?
FA – Algumas das estratégias que objectivámos para destacar a BayQi a nível internacional englobam a expansão, levando os nossos produtos e serviços para outros países africanos e, eventualmente, para outros continentes. Outra estratégia é estabelecer parcerias com grandes empresas internacionais, como a Google e Visa, que têm projectos para África e podem beneficiar-se do nosso know-how local. Queremos participar de eventos e conferências do sector, tanto a nível nacional, quanto internacional, para aumentar a visibilidade da marca. Finalmente, investir em marketing digital e nas redes sociais também é crucial para alcançar um público internacional e aumentar a consciencialização sobre a marca BayQi e os seus serviços.
ANGOP – Para além desta empresa, tem outros projectos que visam, principalmente, o empoderamento da mulher?
FA – Como empreendedora e defensora da igualdade de género, tenho-me dedicado a projectos que visam capacitar e empoderar mulheres em Angola. Para além do projecto da BayQi, o “I Love Angola Meu Negócio A Um Click” é um projecto que criámos com o objectivo de levar a inclusão digital para os empreendedores informais de Angola.
Encontrámos uma maneira de ajudar cantinas, zungueiras e quitandeiras que vendem nalgumas praças de Luanda a digitalizar os seus negócios e a aumentar a sua visibilidade e alcance por meio de tecnologias digitais. Com o projecto, oferecemos um painel digital para cada empreendedor, o que permite que tenham uma presença on-line e divulguem os seus produtos para um público maior. O projecto também enfatiza a importância da educação financeira para esses empreendedores, a fim de aumentar os seus lucros e garantir uma gestão financeira mais eficiente dos seus negócios, tendo um impacto significativo na economia local e no aumento da renda desses empreendedores. Acredito que esse projecto seja fundamental para ajudar os empreendedores informais a tornar-se formais e competitivos no mercado, ao mesmo tempo que contribui para a democratização do acesso às tecnologias digitais. Como empreendedora, sinto que é meu dever ajudar a capacitar outros empresários, especialmente os que ainda estão fora do mercado formal.
ANGOP – Neste quadro, qual deve ser o papel das empresas privadas no apoio ao empoderamento e à igualdade de género?
FA – As empresas privadas desempenham papel fundamental no apoio ao empoderamento e igualdade de género. Como entidades económicas que geram empregos e renda, elas podem contribuir, significativamente, para o avanço da igualdade de género nas suas comunidades e na sociedade, em geral. Uma das maneiras mais eficazes de as empresas promoverem a igualdade de género é garantir a equidade salarial e de oportunidades para homens e mulheres. Isso pode ser alcançado por meio da implementação de políticas e práticas justas de recrutamento, selecção, promoção, bem como por meio de programas de treinamento e desenvolvimento que visam a capacitação de mulheres para cargos de liderança e tomada de decisões.
Por outro lado, as empresas podem investir em programas e iniciativas que visam combater a violência sobre o género e promover a consciencialização sobre os direitos das mulheres. Também podem apoiar e colaborar com organizações não-governamentais e outras entidades que trabalham em prol da igualdade de género e do empoderamento das mulheres.
Em resumo, o papel das empresas privadas no apoio ao empoderamento e à igualdade de género é fundamental para promover uma sociedade mais justa e igualitária. As empresas têm a responsabilidade de ser agentes de mudança positiva e de trabalhar para garantir que homens e mulheres tenham as mesmas oportunidades e direitos em todas as áreas da vida.
ANGOP – Fala muito sobre a inclusão digital das mulheres…
FA – Para garantir a inclusão digital das mulheres, é importante adoptar estratégias que considerem as barreiras que enfrentam. Algumas dessas barreiras incluem o acesso limitado à tecnologia, à falta de habilidades digitais e de confiança para usar a tecnologia. Portanto, é importante que as empresas privadas adoptem políticas e práticas que facilitem o acesso das mulheres às tecnologias digitais e ofereçam oportunidades para aprimorar as suas habilidades digitais. Isso pode incluir programas de treinamento e capacitação, acesso a dispositivos e serviços de internet a preços acessíveis, assim como desenvolvimento de soluções digitais que abordem as necessidades específicas das mulheres. Também é importante que as empresas privadas adoptem medidas que promovam a igualdade de género nos seus próprios ambientes de trabalho, como a eliminação de disparidades salariais e o aumento da representatividade feminina em cargos de liderança.
A BayQi tem trabalhado em políticas de inclusão digital das mulheres desde a sua fundação. A empresa tem um programa específico para empoderar mulheres empreendedoras, que oferece suporte e mentoria para mulheres que desejam iniciar ou expandir os seus negócios digitais na plataforma. Ela procura promover a diversidade e inclusão em todas as suas operações, com especial atenção para a inclusão de mulheres em posições de liderança e tomada de decisão. Por meio dessas iniciativas, a BayQi está a contribuir para a inclusão digital das mulheres em Angola e a ajudar a promover a igualdade de género no país.
Fonte: Angop