Israel Campos: “O céu de Angola está numa cor difícil”

Avatar By Redacao Mar 22, 2023
Israel Campos: “O céu de Angola está numa cor difícil”
No passado mês de Fevereiro, Israel Campos estreou-se na escrita criativa e publicou o primeiro romance: “E o Céu Mudou de Cor”. Um livro onde o autor explora as relações de afectividade entre primos, tios e amigos expostos aos conflitos geracionais, num país que continua à procura de respostas para os problemas e desigualdades sociais.
Uma narrativa com uma força imagética, onde as mensagens chegam através de cartas de protesto, de amor, ou pelo voo dos pássaros. Uma aventura partilhada entre amigos que vivem encurralados num bairro sem esperança e que sonham chegar à “Cidade Baixa” que não está ao alcance de todos e onde reina a abundância.Uma homenagem aos jovens heróis de Angola que resistem aos desafios de um país que, vinte anos depois de ter alcançado a paz, continua a ter cidadãos a comerem no lixo.
Israel Campos nasceu em Luanda no ano 2000. Aos doze anos, começou a carreira como locutor de programas infantis na Rádio Nacional de Angola. Formou-se em jornalismo na Universidades da Cidade de Londres, passou pelo jornal o País, pelo portal anticorrupção “Maka Angola” e hoje trabalha como freelancer no serviço em português da Voz da América e para o serviço mundial da BBC. Em 2021, foi eleito uma das 100 personalidades negras mais influentes da lusofonia.
Porque é que decidiu começar o livro com uma questão de saúde pública, como é o caso do lixo?
Israel Campos: O que tentei fazer foi chamar à atenção para estas questões, que por serem tão constantes, tão frequentes, já não nos causam qualquer tipo de surpresa. São-nos indiferentes. Era por aí que eu gostava de começar.
A questão da educação, a oposição entre o bairro, que não tem nada, e a “Cidade Baixa” que vive na abundância são também denunciadas pelo narrador, um adolescente. Este romance pretende apontar o dedo à realidade angolana ou trata-se apenas de uma coincidência?
Seria irónico eu sugerir que se trata apenas de uma ficção. É claro que este romance vive muito da realidade angolana, sobretudo, da realidade luandense que melhor conheço. Às vezes eu fico confuso entre a ficção e a realidade quando eu trato de Angola. Mas, claro, que há uma intenção evidente. No entanto, eu não gosto muito de pensar que seja um livro puramente ideológico, uma ferramenta contra o regime. É um livro que reflecte algumas das várias vivências da nossa realidade [angolana].
Nesta obra explora as relações familiares recompostas. Dois primos, a personagem principal e Mateus que vivem com a tia Antónia. Existe uma certa confrontação, nomeadamente entre Mateus e a tia Antónia. O que é que pretendeu destacar com estas personagens?
Há uma intenção de explorar este tipo de relações que na nossa realidade são bastante comuns. Muitos são os sobrinhos que crescem em casa dos tios, por diversas questões: as deslocações na Guerra Civil; há sobrinhos que vão para casa dos tios mesmo tendo pais vivos porque os pais têm menos condições de vida. Eu quis captar estas relações que são muito importantes. A figura do tio, da tia, em Angola, é muito importante no crescimento da criança, ou dos jovens.
Depois, há um evidente conflito de geração e vontades entre a tia António e o Mateus. Por terem tidos vivências diferentes, olham para o país também de forma diferente, apesar de existirem alguns pontos de convergência. E o Mateus é, como muitos outros jovens que eu conheço desta nova Angola, um jovem inconformado, tentando buscar caminhos para compreender e fazer alguma coisa pelo seu país.
Encurralados num bairro sem escola, sem oportunidades o narrador e amigo Marley aventuram-se num universo de mensagens que chegam por cartas e através de pássaros. É uma ode à cultura Umbundu?
Também! Claro que nesse capítulo aparece um interesse de se explorar as várias relações que temos com as línguas nacionais. Nesse caso é o umbundo. Há essa discussão das línguas nacionais serem interpretadas por muitas vozes da nova geração como a língua dos mais velhos. Eu e as pessoas da minha geração não falamos porque nunca nos foi ensinado. Achei, por isso, que havia uma oportunidade de explorar e de ver o que dava.
A associação que faço ao universo dos pássaros pareceu-me interessante. Eu tentei tratá-los como uma coisa real do dia-a-dia. Há voos de pássaros que nos encantam e que podem, eventualmente, trazer mensagens. Às vezes não trazem. É simplesmente um pássaro a voar. Mas às vezes tenho a sensação que os pássaros nos querem dizer qualquer coisa. Marley e o protagonista conseguem, de alguma maneira, fazer essa leitura que eu acho bonita.
Há ainda uma carta que mais tarde se percebe que é de amor. Quis também tratar a questão da homossexualidade?
Claro que pretendo tocar nesta questão que às vezes é um assunto que é ignorado, visto como tabu. Eu entendo que a literatura possa ser utilizada para disseminar ódio ou amor, para vários fins. Mas eu acho que a literatura tem o poder de humanizar a visão que temos sobre o outro. Parte do processo de humanização é reconhecer que existe um outro. E essa carta acaba por abrir esta conversa que julgo ser importante e que devemos ter.
Na obra, há ainda a referência aos temas de impacto na sociedade angolana, como o caso que ficou conhecido pelos 15+2, encarnado, de certa forma por Mateus que, depois de ter fugido da “Cidade Baixa”, encontra o no Sr. Zé um aliado. Porque é que o Sr. Zé é branco?
Porque existem angolanos brancos (risos). Se olharmos hoje para o Governo angolano, para a estrutura, existem governantes angolanos que são brancos mestiços. Quis passar a ideia de que há essa diversidade em Angola. E ele [o Sr. Zé] acaba por ser essa figura.
O que o Sr. Zé traz, na verdade, é um discurso que eu estou acostumado a ouvir há muito tempo: pessoas que acham que é mais fácil mudar o país de dentro para fora. Porém, o que acontece, em muitos casos, é que essas pessoas mais ligadas à sociedade civil, ao mundo académico quando entram para o Governo e ocupam esses postos, mudam de forma muito radical e não concretizam essas promessas.
A verdade é que o Sr. Zé é anti-sistema, mas acaba por beneficiar do sistema….
Exactamente, exactamente. E é estranho! Convivemos com essa retórica. Foi isso que quis fazer, explorar essa ideia de pessoas entrarem para essas instituições com uma missão, mas acabarem por ser absorvidas por todos estes benefícios.
Este livro fala ainda de jovens que se sacrificam por uma causa. Quis fazer uma homenagem aos jovens heróis de Angola?
Sim, eu penso ser importante manter a memória viva porque nós precisamos de compreender de onde viemos. A referência clara aos 15+2, surge exactamente disso. Eu acho que eles foram um grupo muito importante de influência e que abriram, de forma indiscutível, os olhos de muitos jovens- como eu-para as questões importantes do país e para a necessidade de não nos conformamos com o status-quo. Há ainda o médico Sílvio Dala que morreu durante a pandemia de Covid-19 por alegada brutalidade policial. Estas referências são importantes porque nos relembram situações que não se podem voltar a repetir.
Os efeitos da colonização e o que restou dela, a colonização moderna são denunciados no seu livro. No prefácio, Alexandra Simeão diz que: “E o céu mudou de cor é uma fotografia dolorosa da realidade angolana 20 anos depois da paz ter chegado, Angola continua a ter cidadãos a comerem no lixo e o céu continua a não dar respostas”. Como é que está o céu em 2023, Israel?
O céu de Angola está numa cor difícil. Olho com bastante preocupação para a realidade que nós vivemos hoje e ainda com maior preocupação para o descaso das autoridades. Sinto que fazendo parte da “geração da paz “tenho essa responsabilidade. Somos a esperança viva. É claro que não podia deixar de dizer que, apesar deste cenário que é realmente dramático, fico muito satisfeito por saber que muitos jovens entendem que a realidade em Angola não é boa e que precisamos de fazer esforços conjuntos para mudarmos. Isso é que me sustenta diariamente. É acordar e ver que jovens, nas mais diversas províncias do país, têm feito esforços nos sectores que podem, nas formas que podem, com os recursos que têm para minimizar o sofrimento de quem nos rodeia.
Fonte: RFI